A Emília que virou David

Digno de novela mexicana, horário da meia-noite, o caso foi muito bem contado por Pedro Nava em Beira-Mar. Eu próprio, modestamente, a ele acrescentei uma ou duas diminutas cerejas, fruto do gosto que tenho por bizarrias em geral, mineiras em particular. E dava o episódio por completo quando, faz uns dias, me caiu nas mãos um depoimento gravado por centenária senhora, já falecida, rico em pormenores capazes de finalmente fechar (ou não?) a história, prestes a completar um século, de Emília, a mocinha que virou David.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 02h00

Vamos imaginar que você não leu o Nava, e menos ainda a prosa esquecível deste cronista, nada sabendo, portanto, acerca de um episódio que chacoalhou a modorrenta Belo Horizonte de 1917, cidade de prancheta que mal chegava aos 20 anos, mas também o Rio de Janeiro, capital da República, onde uma glória literária, o hoje esquecido Coelho Netto, tendo lido no jornal sobre a espetaculosa conversão de Emília em mancebo, nela se inspirou para escrever uma peça de sucesso, O Patinho Feio.

Mas comecemos pelo começo. O patinho em questão, ainda patinha, estudava na Escola Normal, estabelecimento cujo nome, aliás, estava em frontal contradição com aquela aluna, comprida, desajeitada e sobretudo feia, minuciosamente feia. Com efeito, podia ser tudo a Miloca, menos normal, conforme os incrédulos haveriam de constatar até visualmente, caso visitassem o caderno de imagens de meu livro O Desatino da Rapaziada, no qual, em foto de página dupla, a formidanda criatura destoa escandalosamente de suas colegas de turma.

Uma das meninas, não identificada, se chama Zaíra, e é possível que àquela altura estivesse envolvida numa história de amor com a Miloca. História não tão discreta assim: a direção da escola proibiu a entrada de mais de uma aluna nas cabines do banheiro, depois que as duas foram flagradas em suspeita intimidade. Havia mais. Numa roda em que se trocavam impressões sobre menstruação, Emília causou pasmo ao declarar que, aos 18 anos, não tinha “isso”. A certa altura, passou a vestir casaco de gola alta para camuflar um bandeiroso gogó.

Em casa, Seu Nico estava cada mais convencido de que a filhona positivamente fugia ao figurino e, em momentos de exasperação paterna, os vizinhos o ouviam berrar “Miloco” em vez de Miloca. Suas suspeitas ganharam consistência no dia em que, estando Zaíra de partida para o Rio, Miloca encasquetou despedir-se dela na estação ferroviária. De nada adiantou proibir: a moça, digamos assim, foi vista saltando o portão, às 5 da matina.

O pai decidiu levá-la ao consultório do dr. David Rabello. Quando, terminado exame, o médico abriu a porta, Seu Nico perguntou: “E então, doutor, e a minha filha?” “Filha não, meu senhor”, respondeu o doutor: “filho...” E assim soube que Emília era portadora de hipospadia, malformação em que o pênis se desenvolve, mas não sai da toca.

Para corrigir o que Nava chamou de “erro gramatical da natureza”, seria preciso operar – o que foi feito pelo próprio Dr. David, não na acanhada e mexeriqueira Belo Horizonte, mas no Rio de Janeiro. Mais uma proeza de quem já fizera em si mesmo, com auxílio de um espelho, uma cirurgia de hérnia inguinal.

Na peça de Coelho Netto, Eufêmia sai do consultório usando o terno do noivo que o bisturi tornara obsoleto. No caso da ex-Miloca, o que se sabe é que a trança foi cortada e atirada ao mar. Agora, em plena posse de sua macheza, livrou-se a criatura da obrigação de ser bonita; mas depoimentos há de que David – assim batizado em homenagem ao cirurgião –, até mesmo como varão, era um caso de clamorosa feiura.

Não se sabe o que foi feito de Zaíra. Logo David se pôs a arrastar uma asa para outra ex-colega de Escola Normal, a Rufina, com quem, ante uma unanimidade de queixos caídos, veio a se casar.

Pedro Nava fala em happy end, mas não foi assim. Nem bem minguara a lua de mel e Belo Horizonte se pôs à espera de uma prole que, mais do que assegurar o prosseguimento da espécie, atestaria o satisfatório desempenho funcional da ex-Miloca. Esperou-se em vão.

Frustrada em mais que sua vocação de mãe, Rufina mergulhou numa tristeza para a qual só viu consolo na fé religiosa. Separou-se do marido que, como num romance antigo, se acabou ainda jovem, cuspindo o sangue dos tuberculosos.

Na intimidade do confessionário, a esposa insatisfeita abriu ao padre o coração, e em seguida mais que isso – e eis a maior novidade do depoimento a que agora tive acesso: confessor e confidente não tardaram a buscar mobiliário mais acolhedor, no qual literalmente deitaram e rolaram.

Se os amantes foram felizes? Ainda não chegou a mim uma só palavra, escrita ou falada, que indique o contrário.

 

 

 

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