Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

A dureza de ser caipira

Dupla de Mato Grosso faz de tudo para não entrar no balaio do ''sertanejo moderno''. Pelo jeito, público não vai faltar

Cristiane Bomfim, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Se dependesse só da vontade de João Carreiro e Capataz, o sucesso viria em versos brutos sobre a vida do cabra simples criado na roça, que gosta do certo e que ainda tropeça na gramática na hora de contar causos ou falar de amor. Mas para fazer suas modas de viola chegarem às rádios, a dupla de Mato Grosso teve de fazer um bem bolado e acrescentar no repertório músicas com temas mais atuais.

É um pé no interior e outro na vida dos jovens que vivem nas grandes cidades. "É que não dá para sobreviver só das modas que a gente gosta", explica João Carreiro, de 27 anos e compositor de todas as músicas do CD que será lançado neste mês. A ideia da dupla, que caminha na contramão das conhecidas "sertanejas universitárias" é agradar de uma vez só aos dois públicos: o que gosta da música caipira e o que pouco conhece este estilo.

"A gente quer trazer pro nosso lado quem gosta do sertanejo romântico e do sertanejo pop", conta Capataz, 32 anos, que na verdade se chama Hilton. E foi nessa pegada que a dupla formada há oito anos conseguiu gravar em 2009 o primeiro CD pela Som Livre. O segundo, com DVD, será lançado no mês que vem, com o nome Xique Bacanizado. "A gente não tocava nas rádios e ainda não toca, mesmo assim no interior nossas músicas são conhecidas e o público sabe de cor. Isso chamou atenção da gravadora", diz João.

Para a cantora, apresentadora e entusiasta da moda caipira, Inezita Barroso, a fórmula escolhida pela dupla pode não dar certo. "Quando o dinheiro entra no assunto, a arte é deixada de lado. E quem gosta de moda caipira não gosta disso tudo que andam chamando de sertanejo", diz. Ela no entanto, concorda que não se vive de moda de viola.

O produtor musical e jurado do Qual é o seu talento?, do SBT, Carlos Miranda, acredita que o sucesso da dupla nas grandes cidades é questão de tempo. "Os caras estão totalmente no caminho inverso das duplas sertanejas da moda hoje. Eles sabem usar a moda raiz muito bem e ao mesmo tempo modernizam com mais bom gosto. É muito bom que existam contrapontos como este, senão o sertanejo ia pro buraco", diz.

Fãs de Tião Carreiro e Pardinho - foi daí que veio o nome da dupla - e de Matogrosso e Mathias, a dupla só fez um show na Capital, que ocorreu neste ano. Mas já é conhecida em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás e interior de São Paulo. "Todo mundo começa na Capital e depois se espalha pelo Brasil. Estamos fazendo o contrário", diz Capataz.

A dupla se conheceu por acaso em 2002. João sempre tocou viola. E Capataz, que queria ser delegado, arranhava. O tio de Capataz apresentou os dois. "A gente não é irmão, mas temos a moda em comum."

COMO ELES SOAM?

Inezita Barroso

Cantora e apresentadora

"Sempre disse que moda de viola não dá dinheiro. Moda não tem guitarra, bateria. São duas violas caipiras com letras religiosas, da natureza, da vida no campo. O que eles fazem não me parece verdadeiro"

Miranda

Produtor musical

"É um milhão de vezes mais interessante do que todas as duplas sertanejas ditas universitárias. Eles estão na contramão. Sabem usar a raiz muito bem e ao mesmo tempo modernizam com uma pegada forte"

Tinoco

Cantor

"Fico muito orgulhoso que as duplas novas cantem modas de viola. Eles estão conservando uma tradição e levando esse estilo para o grande público"

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