A dura rotina de um escritor

Já fui chamado de machista, sexista e homofóbico. De farsante, me chamavam nos anos 1980. De comunista, desde o colegial. Petista e esquerdopata, escuto direto.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 03h00

Esquerdomacho, virei um neste ano – em que me chamaram também de racista, antissemita, e quase fui processado e condenado a pagar uma indenização a Gilmar Mendes, o magistrado mais impopular da história da República, por prejuízos à sua honra, condenação da qual Monica Iozzi não escapou. Que ano...

Meu primeiro livro, Feliz Ano Velho, precisa ser revisto periodicamente. Termos, apelidos e expressões que eram usuais numa década tornaram-se ofensivos na seguinte. O livro não é reescrito, mas enxugado. Daqui a anos, talvez sobrem apenas algumas páginas, e terei que mudar o título, por ser ofensivo a alguém.

Não me queixo. Me pergunto como foi possível usarmos anteriormente termos e expressões que eram ofensivos, e só depois de décadas percebermos.

Centenas de mulheres, no ano retrasado, durante a Flip, numa praça lotada no centro de Paraty, fizeram coro: “Machista!” Eu mediava um bate-papo ao ar livre entre Maria Ribeiro, Xico Sá e Gregório Duvivier, no primeiro dia da feira.

Estava feliz e confortável entre ídolos. Especialmente ao lado de Maria, amiga há quase 30 anos, com quem ri, trabalhei e acabara de dirigir uma peça de teatro complicadíssima, viajei, convivi, ciceroneei, testemunhei sua evolução no palco e descobri: tornara-se uma das maiores atrizes de sua geração. 

Íntimos, temos uma quantidade enorme de private jokes. Costumamos nos provocar até ao vivo. Ela me cutucava, eu devolvia com mais sarcasmo, e ela com mais ainda. 

O público, fã de Maria, não nos entendia. Quis se manifestar. Olhei para trás, procurando os olhos dos organizadores. Não, a plateia não poderia se manifestar, nem microfone tinha para isso, e eu tinha sido alertado à conhecida prática dos debates da Flip.

Foi quando começaram: “Machista!” A mais exaltada gritava: “Eu odeio machistas, me dá este microfone!” Joguei o microfone para ela e fiquei repensando a minha vida. Eu não podia ir embora. Estávamos rodeados, o palco, tomado. Fui chamado de machista o resto da noite. Olhei para o céu. Só falta começar a chover agora. Começou a chover. 

Mais tarde, a GloboNews nos procurou. Queria repercutir a polêmica que tivemos num debate ao vivo para centenas de pessoas. Sorrimos. Eu e Maria afinamos o discurso e dissemos que não rolou nada demais. Fui para a pousada, fiz o check-out e parti de madrugada. Perdi o resto da Flip 2015.

A peça E Aí, Comeu? foi escrita para indicar a decadência do discurso masculino, da piadinha de bar, do papinho malicioso e desrespeitoso praticado por caras da minha geração. A maior parte do público entendeu. Virou uma sensação. Costumávamos fazer debates depois da peça sobre a necessidade de o homem repensar o discurso e rever seu papel.

Psicanalistas, psicólogos, acadêmicos e estudantes a citavam. Ganhou prêmio de melhor texto. Hoje, sou chamado de esquerdomacho por causa de uma peça intitulada E Aí, Comeu? por gente que não a viu.

Uma década da minha literatura é questionada. Tudo porque minha editora, a genial Isa Pessoa, me encomendava livros em que eu falaria de mulheres. Dizia que eu entendia da alma feminina, e as leitoras amariam ler a minha visão sobre elas.

Foram quatro: Malu de Bicicleta, O Homem Que Conhecia as Mulheres, A Segunda Vez Que Te Conheci e As Verdades Que Ela Não Diz.

Flaubert, Tolstoi, Machado de Assis e Truman Capote fizeram a fama escrevendo sobre mulheres e a opressão que sofrem. Com a predominância do lugar de fala, Madame Bovary, Anna Karenina, Dom Casmurro ou Quincas Borba e Bonequinha de Luxo jamais deveriam ter sido editados. E Chico Buarque jamais afinado um violão e abandonado o curso de arquitetura da FAU.

Eu me vejo obrigado a, rotineiramente, fazer retratações. Chegará um dia em que farei mais retratações ou darei explicações detalhadas do que quis dizer do que continuar aliado ao ineditismo.

A compreensão de texto é um déficit no Brasil. A cegueira ideológica impede o entendimento de sutilezas, entrelinhas, ironias. Para um autor, ter que anunciar “é uma piada” é uma tortura.

Senti saudades do tempo em que me chamavam apenas de analfabeto, subescritor, e diziam que quem escrevia meus livros era uma comissão da editora. Professores de cursinho, assim como escritores, juravam em público que meus livros eram na verdade escritos por Caio Fernando Abreu. Manifestação de um preconceito a qual estou habituado.

Ser escritor, hoje, é um ser didático. É, antes de tudo, um forte. Dá vontade de largar tudo. 

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