A dupla que fatura

Um encontro com Roberto Santucci e Paulo Cursino, que fazem as comédias que estão arrebentando na bilheteria

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h08

Roberto Santucci não se esquece das sessões da tarde de sábado na Globo. "Eles passavam as comédias mudas de Harold Lloyd. Eu era um que não perdia." Diz que a Globo já foi 'nossa cinemateca'. Lamenta que hoje a emissora só exiba as mesmas comédias dos últimos 10/15 anos. "Com isso, o público jovem empobreceu seu repertório", lamenta. Há duas maneiras de avaliar o que diz - Santucci está sinceramente preocupado com a falta de cultura das novas gerações de espectadores, mas sempre haverá algum crítico para dizer que é por isso que suas comédias estão estourando.

Na terça, quando o repórter visitou o set do novo Santucci - O Dia dos Namorados, com Heloísa Périssé -, no estúdio improvisado na Estrada das Canoas, Alto da Boa Vista, no Rio, o diretor e seu roteirista, Paulo Cursino comemoravam o recorde de Até Que a Sorte nos Separe. A comédia com Leandro Hassum ultrapassou 2,7 milhões de espectadores e virou a maior bilheteria nacional do ano. No dia anterior, a Rede Cinemark abrigara, em todo o País, sua promoção de filmes brasileiros. Até Que a Sorte com certeza foi visto por nova batelada de público. Com o feriadão, e mesmo sofrendo a concorrência do episódio final da saga Crepúsculo - Amanhecer O Final estreou em 1.300 salas, a metade do parque exibidor do País -, não é de admirar que a comédia com Leandro Hassum esteja fechando 3 milhões de espectadores.

É sucesso para ninguém botar defeito, mas se há coisa que os críticos não se cansam é de enumerar os defeitos de Até Que a Sorte nos Separe. Santucci e Cursino filosofam. "Os críticos podem achar o que quiserem do nosso filme, só não podem se valer de argumentos burros para nos acusar de haver feito uma comédia pouco inteligente", diz o roteirista. Fã da parceria Billy Wilder/I.A.L. Diamond - Quanto Mais Quente Melhor é seu filme preferido -, Cursino se aborrece com as críticas porque elas podem ter um peso negativo principalmente sobre os atores. "Os caras se sentem uns merdas. É injusto."

Criaram-se definições para as comédias que arrebentam nas bilheterias. Neochanchadas, neopornochanchadas. "Paulo Sérgio Almeida (do Filme B) é um cara que respeito", diz Cursino. "Ele pergunta - como podem ser neochanchadas, se não têm paródia nem números musicais?" Santucci prossegue - "Hoje em dia se abriga tudo no mesmo guarda-chuva. De Pernas Pro Ar faz humor com sexo e aí, digamos que poderia ser neopornochanchada. Mas Até Que a Sorte nos Separe é comédia familiar. Não dá para incluir tudo no mesmo rótulo."

O próprio boom das comédias é colocado sob suspeita. "Temos um número bem limitado de comédias que bateram 1 milhão e chegaram a 2, 3. A maioria faz muito menos" (leia comentários). De qualquer maneira, e tirando-se os fenômenos Tropa de Elite, de José Padilha, e O Palhaço, de Selton Mello, as comédias têm-se saído melhor no mercado. "Mas isso é talvez porque os diretores de dramas não saibam entregar o produto que interessa ao público", reflete Santucci. A questão é sempre essa - como chegar ao público? "Não é só raciocínio de mercado. Alguém acha que o Wilder, como produtor e diretor, se lixava para o público?"

É muito interessante ver Santucci em ação, e vê-lo dialogar com seu roteirista. Santucci era um diretor de filmes malditos. Bellini e a Esfinge, baseado no livro de Tony Bellotto, fez 60 mil espectadores, apesar de Malu Mader e Fábio Assunção. Sequestrados, depois O Sequestro, nem teve lançamento (e é seu filme preferido). Todo mundo achou que era piração da produtora Marisa Leão, quando chamou Santucci para dirigir De Pernas pro Ar. A comédia com Ingrid Guimarães estourou (e bateu 3 milhões de espectadores). Santucci foi promovido a Midas.

Fez Até Que a Sorte nos Separe (que vai para 3 milhões de espectadores, de novo). Dirigiu De Pernas pro Ar 2, que já está pronto, para estrear em janeiro. Prepara Até Que a Sorte nos Separe 2, para rodar no começo de 2013. E vai dirigir outro roteiro de Paulo Cursino, uma comédia meio Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, que vai se chamar Mulheres Loucas para Casar. Com toda essa atividade, arranjou tempo para apagar um incêndio - dirigindo O Dia dos Namorados (para estrear em junho do ano que vem).

"O roteiro era insatisfatório, chamei o Cursino, ele não queria, mas aceitou. Cursino escreve na embocadura dos atores. Como conhece a Ingrid, o Leandro, a Heloísa, por já haver escrito para eles, o Cursino prevê no roteiro. 'Aqui, eles enlouquecem.' Já sei o que significa. É deixar o ator solto. Mas isso é um momento. A gente tem história, pensa nelas. Dizem que nosso humor é de TV, mas como? A gente tem muito diálogo, mas tem cenas puramente visuais, que a TV detesta. Posso não ser tão bom, mas não me esqueço do meu Harold Lloyd."

O sucesso da dupla não é produto do acaso, mas da aplicação. No set, Santucci é o primeiro a rir da piada e, mesmo assim, testa possibilidades, pede para o ator repetir. "Nem sempre se acerta, mas não é por falta de tentativa", conclui.

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