A dupla face de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade foi o poeta da guerra interior. De um lado, a poesia como reino das palavras; de outro, como domínio das coisas. De um lado, a exploração de um "Eu todo retorcido", tímido, avesso à publicidade e à exposição; de outro, a manifestação de um "sentimento do mundo", pleno e engajado, um poeta de seu tempo. Dito de modo mais sintético: de um lado, a literatura do Eu; de outro, a literatura do Outro. Assim é a poesia de Drummond, paradoxal, em dupla face, uma coisa e ao mesmo tempo o seu contrário. Um campo de luta."No processo da poesia brasileira, raro é o poeta que tenha desnudado na cena do texto suas contradições com tanta insistência e veemência e que tenha sido o protagonista de tão implacável guerra dentro de si mesmo quanto Drummond", afirma Marlene de Castro Correia, professora da UFRJ e autora desse equilibrado ensaio, Drummond: A Magia Lúcida. Grande poeta entre os maiores que o século 20 produziu, bastando pensar em Cabral, Bandeira, Cecília e Vinicius, Drummond deles se distingue, ou a eles supera, pela capacidade de fazer, com a poesia, uma síntese de um tempo.O poeta Carlos Drummond é um homem despedaçado - é o sujeito dividido da modernidade. "Semelhante dilaceramento interior só encontra paralelo em Mário de Andrade", Marlene diz numa avaliação precipitada que, por certo, deixa escapar a forte tensão oculta nos versos de Cabral, a pressão do nada em Bandeira e o lirismo a facadas de Vinicius. Não importa. Seu estudo sobre Drummond é um dos mais sensíveis já produzidos pela crítica brasileira, sobretudo porque não teme enfrentar, nem tenta resolver, a luta de opostos com que o poeta lidou. Marlene aceita, e eleva a primeiro plano, os paradoxos que Drummond oferece em seus poemas, obstáculo sintetizado no verso famoso: "No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho."Dividido entre a paixão do Eu e a lucidez do real, Drummond encontrou um ponto de equilíbrio no humor ou, como Marlene especifica, na ironia romântica. Basta pensar em versos clássicos como: "Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não uma solução." Na poesia de Drummond não há lugar para soluções. Não é uma poesia de resultados e por isso conduz o leitor, sempre, a um estado que fica entre a pergunta e outra pergunta. O humor lhe serve, antes de tudo, como freio. Elemento que não anula, antes exacerba, o aspecto dramático de seus versos. Poesia tragicômica, portanto, ela funciona como uma encruzilhada de todos os gêneros. "A tensão entre essas duas forças - o furtar-se e o expandir-se -, o conflito entre a tendência à desordem passional e a tendência à ordem intelectual que a refreie contagiam a poesia de Drummond de inconfundível dramaticidade", Marlene descreve com precisão.Deslocamentos - É, assim, uma poesia de deslocamentos - ora achamos que estamos num lado, ora em outro. Uma poesia de superposições: concreto/abstrato, existencial/circunstancial, liberdade/necessidade, novo/velho. Drummond trabalhou com a tradição para chegar à novidade. Desestruturou a linguagem não para matá-la, mas para encontrar maneiras mais eficazes de se comunicar. Dualidades que desencavam problemas sem a pretensão de resolvê-los. Como ele mesmo escreveu em Pacto, "tudo é pergunta na criação". Esse estado de perplexidade confere à poesia de Drummond um sentido trágico. Citando Gerd Bornheim, Marlene recorda que, em última análise, toda tragédia quer saber qual é a medida do homem; toda tragédia pergunta se o homem encontra a sua medida em sua particularidade, ou se ela reside em algo que o transcende."O poeta paga um alto preço por enovelar-se na própria particularidade", ela constata. Na tragédia, além de tudo, o sujeito se vê detido em uma situação-limite, que não pode suprimir, ou substituir. "Não foi ele quem a criou; elas são o que são em virtude de um dado que lhe escapa", escreve. Essa força insuperável é também o obstáculo que a poesia de Drummond, sem sucesso, mas com ardor, tenta superar. A pedra posta em seu caminho. "Este é de resto o mal/ superior a todos:/ a todos como a tudo/ estamos presos", o poeta escreveu em A Um Varão, Que Acaba de Nascer. O herói trágico - e o poeta segundo Drummond é sempre trágico - não pode escolher não ser quem é. Sua liberdade se restringe a assumir a sua condição de objeto de uma escolha. "O mundo é estreito. Uma prisão de água/ envolve o ser, uma prisão redonda./ Então me faço prisioneiro livre", ele escreveu em Banho de Bacia.Marlene vê Drummond caminhando na senda aberta por Goethe, que definiu o trágico como "uma contradição irreconciliável". Se há solução, não há tragédia. É o próprio Drummond quem vai falar, em Poema-Orelha, em certo "não estar-estando no mundo". Desse estado paradoxal, Drummond - como fez um Thomas Mann ? retira, porém, a ironia, que se converterá, segundo Marlene, em sua "atitude fundamental". A ironia - do grego, "eiróneia", isto é, "interrogação" - é um recurso que se baseia em um duplo movimento, que joga com a imaginação, mas também com a forma. É um dizer e logo desdizer. Marlene nos recorda que a arte não-irônica privilegia a imaginação e vê a matéria poética (a forma) como simples veículo. Pratica, em conseqüência, de uma estratégia ilusionista. Drummond, como Mann, Kafka, Sterne e uma tradição que vem do romantismo alemão, joga, ao contrário, com a ambivalência imaginação/forma. Daí sua "magia lúcida" - ele continua a imaginar, mas não se furta de refletir sobre o que faz. A poesia de Drummond habita essa cisão entre o Eu que sonha e o Eu que zomba do próprio sonho. Assim se entende melhor a mistura de gravidade e zombaria que a percorre. É uma poesia da dúvida, na qual não há lugar para palavras definitivas.O ensaio de Marlene de Castro Correia não nos fornece soluções, ou mesmo parâmetros firmes, para ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Ao contrário, mostrando que ela é ambivalente e vacilante, a ensaísta sugere que, ao leitor resta, tão-somente, aceitar esse estado de dúvida. Como o próprio Drummond sugeriu em Procura da Poesia: "Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/ pobre ou terrível, que lhe deres:/ Trouxeste a chave?"Serviço - Drummond: A Magia Lúcida. Livro de Marlene de Castro Correia. Jorge Zahar Editor, 192 páginas, R$ 25.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.