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A dor tem voz e não varia

Janelas altas, fechadas; a única porta, trancada. Tudo na fachada está vedado, como se fosse proibido visitar o lugar da infância. Mas lugares proibidos são devassados pela memória, que dança e salta no tempo, arromba portas e cadeados e revisita os que já partiram da casa, da rua e da cidade.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2015 | 02h00

Ali, de pé no balcão da Renascença, dona Arminda faz um sinal para mim: é um convite para visitar o armazém cheio de iguarias portuguesas, uma das festas da infância.

Havia outras, quase todas inesperadas naquele tempo largado e sem relógio, tempo de surpresas e descobertas. No quintal do sobrado, camaleões e calangos chispavam entre folhas secas, os pássaros não se assustavam com a corrida dos répteis e mordiam com avidez as frutas maduras: jambos quase arroxeados, mangas rosadas, pitangas que pareciam pequenas estrelas vermelhas sob um céu vegetal.

Depois de um temporal, tio Adam me pedia para ajudá-lo a ensacar as folhas molhadas e juntar as frutas ainda verdes, derrubadas pela ventania.

Um jardineiro feliz, tio Adam. Eu também ficava alegre quando ele dizia nomes de pássaros e os tratava como seres íntimos, familiares. Meu tio imitava o canto dos passarinhos, conversava com eles numa língua secreta e melódica, a língua dos que têm uma relação afetiva com a natureza. Mas Adam detestava mucuras. “São fedorentas, traiçoeiras, comem os pintinhos e as galinhas”, ele dizia.

Tiros de espingarda matavam esses bichos, que, às vezes, tremiam e enrolavam a cauda, numa agonia breve.

Crescer, tornar-se adulto, significa adquirir consciência plena da tristeza e da crueldade? Dos sentimentos bons e dos mais terríveis?

As mucuras mortas não me abalavam, talvez por serem mais fortes que as aves. “Dois papagaios da tua avó foram estraçalhados por uma mucura”, disse Adam. “Quando uma dessas pestes passa pelo quintal, leva chumbo.”

Mas a morte de outros animais me entristecia por muitos dias. Com um golpe de faca no pescoço, tio Adam matava um cabrito. Segundos antes de morrer, ainda amarrado ao tronco do jambeiro, o pequeno animal soltava um balido, bem diferente dos sons que emitia quando uma faca não o ameaçava.

Nesses almoços de domingo, que se prolongavam até o anoitecer, eu não participava da festa dos adultos.

Gostava de brincar com os cabritinhos. O mais solitário parava de comer folhas e me olhava com uma expressão de dúvida, o olhar indagador. Ele via inocência no meu rosto de criança? Ou será que sentia uma promessa de crueldade em todas as pessoas que o encaravam? Não sei. Mas aqueles balidos antes da morte me perseguem até hoje, e lembram um belo poema (A Cabra) do escritor italiano Umberto Saba:

“Aquele balido igual era fraterno

à minha dor. E eu respondi,

primeiro

por burla, depois porque a

dor é eterna,

tem voz e não varia.

Essa voz ouvia

gemer em uma cabra solitária”.

*

(Os Homens e os Animais, poemas de Umberto Saba, org. Patricia Peterle e Lucia Wataghin. Tradução de Aurora Bernardini, ed. UFSC, 2014.)

Será que o animal sentia uma promessa de crueldade nas pessoas que o encaravam?

 

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