A dor para além da metáfora

Uma das vantagens da edição não cronológica da obra de Philip Roth, que vem sendo executada pela Companhia das Letras, é possibilitar uma leitura arqueológica de seu colossal trabalho. Há demasiados livros do escritor que, apesar de serem muitas vezes descuidados, muito abaixo em realização estética daquilo que o autor alcançou na última década e meia, possuem nós e temas que concentram tramas que seriam mais bem exploradas recentemente por ele. Patrimônio, que ganha nova edição, é um caso desses: é o romance anterior à explosão cômica de Operação Shylock, e possivelmente aquele que reeducou Roth, quer dizer, o fez rever escolhas que pareciam travar seu talento.

VINICIUS JATOBÁ, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h08

E o talento de Roth para a prosa de ficção é descomunal. Não é raro isso acontecer: um escritor desenvolver um talento cinzelado para o exercício da arte da prosa, e alcançar um domínio magistral de sua escrita, mas não conseguir encontrar temas e assuntos que brindem essa prosa com algo que chamaríamos de transcendência. Não raro grandes romancistas são prosistas pedestres, como Lobo Antunes, por exemplo, assim como acontece o contrário: mestres da prosa que desperdiçam seu talento em narrativas cujos personagens parecem não ter vida e cujas tramas são forçadas e esgarçadas. É o caso de Norman Mailer, Gore Vidal, escritores que se admira por trechos isolados, mas cujos livros sofrem de um descompasso entre o luxo da prosa e a pobreza de temas.

Após décadas escrevendo livros altamente retóricos, Roth encontrou uma trama que o forçou a tomar o caminho oposto: empobrecer a prosa, simplificar a sintaxe, domesticar o vocabulário: a morte do pai. Patrimônio é um anti-Roth: pedestre, direto, modesto. E é a primeira história verdadeiramente complexa de sua obra. No romance, o ficcionista encontra o tema que elevaria o restante do seu trabalho: o corpo. É curioso notar isso: um autor cuja carreira alcançou notoriedade escrevendo narrativas literárias de tempero erótico jamais tinha realmente encarado de frente a fisicalidade do corpo, a temporalidade do Eros e do desejo.

Mesmo no superestimado O Complexo de Portnoy, um livro inteiro dedicado ao sexo, o corpo jamais é enfrentado; ele é sempre mais discurso, mais metáfora, mais histeria, que realidade. É até certo ponto um livro liberador, , mas desnuda o corpo das personagens apenas para colocar diante dele o pudor da retórica. A morte também já esteve presente em Roth: em O Escritor Fantasma, Zuckerman visita seu mestre literário, E.I. Lonoff, para um jantar e, de certa forma, uma espécie de rito de condecoração. O livro inteiro é uma ladainha em redor do lugar da literatura, de como se usa a própria vida para se escrever, dos riscos de publicar e ter sua vida invadida. É um incômodo: a verdadeira história, a senilidade de Lonoff, não é jamais tocada.

Patrimônio muda tudo. Herman Roth é um personagem, mas é real, ele existiu, e esse limite purifica o talento do escritor, que vai, assim, direto aos fatos. A prosa deixa de circum-navegar em redor dos temas, autoindulgente e exibicionista: o assunto no livro é uma dor real, que nenhuma metáfora ou figura de estilo pode dar conta: a doença repentina que devora a saúde de um ser humano amado e querido. Roth pai doente pergunta ao Roth filho espantado: "O que eu sou agora?". E um dos mestres da prosa estadunidense, um artista que até então era capaz de fazer qualquer coisa em termos de escrita, não tem uma resposta. Na tentativa de lidar com a dor da morte do próprio pai, Roth fez um romance que presta uma homenagem seca e pouco volátil a um homem prático e realista.

Não surpreende que os livros posteriores a Patrimônio sejam duas obras-primas revisionistas de seu trabalho. Operação Shylock, uma metanarrativa em que Roth persegue Roth em uma Israel surrealista povoada de agentes secretos e grupos religiosos radicais, e O Teatro de Sabbath, onívora apoteose do Eros, em que o idoso Mickey Sabbath tem que lidar com a morte de sua amante perfeita enquanto busca uma substituta. Esses dois livros apagam do mapa todos os anteriores de Roth e inauguram o momento criativo mais celebrado de sua carreira. Sem jamais alcançar novamente a força de ambos os romances, o ficcionista publicou uma joia após outra: Homem Comum e A Humilhação, que tem pontos de contato com Patrimônio; a trilogia Pastoral Americana, Casei Com Um Comunista e A Marca Humana; e Fantasma Sai de Cena, que finalmente dá conta do legado de Lonoff. Essa última e prolixa etapa de sua vida criativa colocou Roth no mesmo patamar de excelência de Don DeLillo, Toni Morrison e Cormac McCarthy.

VINICIUS JATOBÁ  É CRÍTICO LITERÁRIO

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