A dor do mundo recriada em sons

Buscando o equilíbrio difícil entre vida e obra, dois estudos investigam importância da criação de Gustav Mahler - e o espaço que ela ocupa no imaginário artístico de nosso tempo

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

A vida de Gustav Mahler é tão interessante quanto sua música. Esta talvez seja a razão de uma avalanche extraordinária de estudos, biografias e livros que não param de ser publicados. Dezenas de caixas com sua obra completa foram relançadas este ano. Nas últimas duas décadas, 20 filmes utilizam sua música. E, se numa só efeméride editoras e gravadoras já costumam acelerar seus produtos-tributo, imagine-se então quando estão em jogo duas: em 2010 os 150 anos de nascimento; e em 2011 o centenário de morte.

Dois livros recém-lançados, um por aqui, outro na Inglaterra, comprovam que "nunca se consegue falar do que se ama", frase de Roland Barthes que Arnoldo Liberman coloca como epígrafe de seu péssimo Gustav Mahler: Um Coração Angustiado. Que este médico argentino de 76 anos escorregue na maionese das hipérboles de mau gosto, não surpreende. Frases como "expressava de colcheia em colcheia os sobressaltos de uma humanidade em crise" pululam pelas páginas encharcadas de rasa dupla psicanálise. Além disso, há problemas de tradução, como "dirigentes de orquestra" - não seriam maestros, por acaso? Quem quiser uma introdução ao compositor fique com Mahler, de Michael Kennedy (Zahar).

A surpresa é que o experiente e polêmico jornalista inglês Norman Lebrecht também quase estraga seu ótimo Why Mahle0r? How One Man and Ten Symphonies Changed the World pelos mesmos motivos. No final da biografia, que consome 200 das 340 páginas do livro, Lebrecht junta-se a Liberman ao afirmar que "Mahler é uma rocha de verdade num mar de ilusões"; nas páginas 290/291, desfila praticamente um manual de autoajuda baseado no "punhado de verdades e ideais que Mahler me ensinou", pérolas que Paulo Coelho assinaria convicto. Pois as pouco mais de 100 páginas restantes são inteligentes e agudas - o Lebrecht costumeiro. Polêmico e no limite da injúria em suas diatribes. É, afinal, o que se precisa saber sobre Mahler hoje, no século 21. Em tempo: a Record adquiriu os direitos para lançamento no Brasil, ainda sem data definida.

O mito do homem que carregou nas costas a dor do mundo põe na sombra o que de fato importa: sua música genial. Arnold Schoenberg, ainda chorando a morte de Mahler, em julho de 1911, deu o pontapé inicial no "culto da vitimização de Mahler". Foi numa palestra, na qual canonizou o compositor como "este mártir, este santo", e arrematou: "Raramente alguém foi tão maltratado pelo mundo; ninguém, provavelmente, mais do que ele."

Ainda bem que Lebrecht separa a biografia da parte mais suculenta de seu livro, intitulada Uma Questão de Interpretação. É onde sintetiza 36 anos de pesquisa sobre o compositor. E faz um guia de entrada no universo mahleriano. "As sinfonias são assustadoramente longas, as canções em alemão. Para quem não tem paciência nem domínio do alemão, Mahler pode parecer proibido, uma fortaleza sem porta de entrada. Mahler não oferece menu. Ame ou odeie, não há meio-termo." Corajoso, aconselha, para quem nunca ouviu música clássica, a adentrar o universo mahleriano pelo CD Primal Light, do jazzista Uri Caine, com arranjos com guitarra elétrica, numa estética que chama de "pós-moderna". Concordo. Quem começar com Uri Caine, terá bom guia para em seguida aventurar-se no monumento das nove sinfonias completas e no adágio da décima, assim como nos ciclos de canções.

Floresta. A parte essencial deste excelente livro são as 53 demolidoras páginas em que Lebrecht sente-se mais à vontade, com sua divertida metralhadora giratória. Afinal, ele é crítico de profissão. E analisa, sinfonia a sinfonia, ciclo a ciclo de lieder, a imensa quantidade de gravações disponíveis. De cada obra, tem qualificações para ao menos uma ou duas dezenas de registros.

Começa lembrando Mahler numa carta a Bruno Walter: "Gostaria de publicar revisões de minhas partituras a cada cinco anos." E anota que "é enorme a discrepância entre o que Mahler escreveu, o que foi impresso e o que ele fez em performance". Por isso, o compositor também disse ao maestro Otto Klemperer: "Se depois de minha morte algo não soar correto, mude. Você não tem só o direito, mas o dever de fazer isso."

E, depois de admitir que "a performance perfeita em Mahler é impossível, porque ele mesmo se dividia entre o compositor que exigia respeito e o maestro que sonhava com liberdade de expressão", desmonta o que chama de "floresta" de mitos envolvendo a interpretação de Mahler. Todo maestro tem que ser: 1) judeu: "Todo maestro que recorre ao fato de ser judeu para qualificar-se em Mahler condena-se a ser uma fraude"; 2) da Europa central: "Como ficam Abbado, Giulini e Chailly, todos excelentes mahlerianos?"; 3) um sujeito com muita leitura: "Tennstedt só lia Reader"s Digest"; 4) tem de ser muito velho: "Rattle tinha 25 anos quando gravou a décima, Dudamel está com 28 e já tem uma quinta excepcional no currículo"; 5) um expert: "O amador Gilbert Kaplan deu conta da segunda sinfonia"; 6) precisa reger a obra completa: "Klemperer jamais regeu a quinta e a sexta; Bruno Walter não gostava da oitava"; 7) mantê-la intacta: "Sherchen fez vários cortes em sua gravação da quinta, assim como Paul Kletzki na primeira; em Mahler não há regras absolutas."

Não tenho espaço para revelar aqui suas preferências nas sinfonias e ciclos de canções. Mas anote-se que, por exemplo, Lebrecht qualifica os registros de Pierre Boulez como coisa de "mesa de UTI", de tanta frieza; descarta Barenboim e Karajan, interessados numa beleza pura que simplesmente não existe em Mahler; elogia Klaus Tennstedt, assim como John Barbirolli e Klemperer. Numa penada, joga no mesmo saco Haitink, Solti, Bernstein, Levine e Nagano ao comentar as interpretações da terceira sinfonia: todos quebram a cara.

Estranhou que até agora não citei Leonard Bernstein, o maestro que mais batalhou pelo "revival" mahleriano nos anos 60? Simples. Lebrecht não gosta dele. Admite que sua sétima é "incomparável", "uma aventura paranormal", mas fecha com Tennstedt, que considerava "masturbação mental" os cursos/programas de TV de Lenny. Ninguém é perfeito, claro. Mas Lebrecht confia muito no seu taco. Como Mahler, lembra no final do livro. "Ele trabalhava além das expectativas de seu tempo, tinha que confiar em seu taco. Em arte, não há outro jeito". Na crítica musical, também. Rodeado de livros, documentos, manuscritos e gravações de Mahler em seu escritório, dá provas da paixão pelo compositor ao qual dedica sua vida há 36 anos ao confessar: "Em caso de incêndio salvaria primeiro as crianças e logo em seguida meus objetos mahlerianos."

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