A dor de Sarah Kane ecoa em muitas vozes

O grupo Fatal Companhia encena Psicose 4h48, derradeira peça da radical e corajosa dramaturga inglesa

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h09

Um mês depois de encerrar a escrita da peça Psicose 4h48, a dramaturga britânica Sarah Kane (1971-1999) se enforcou no King's College Hospital de Londres, com os cadarços dos próprios tênis. Aquele texto cênico já revelava seu estado de desespero: uma mulher à beira do suicídio tem os momentos finais de vida marcados por alucinações.

Montado em São Paulo em 2003 com Isabelle Huppert, Psicose 4h48 ganha nova versão, no Teatro Cultura Inglesa-Pinheiros, agora sob a responsabilidade de um especialista na obra de Sarah Kane: o diretor e tradutor Laerte Mello. À frente do grupo Fatal Companhia, ele utiliza recursos de videoarte, dança contemporânea e trilha sonora tocada ao vivo, além de escalar não apenas uma mas várias atrizes que apresentam vozes de uma ou mais mulheres em estado de depressão, alternando a percepção das personagens em relação aos tratamentos médicos recebidos e à forma com que os profissionais de saúde, familiares e amigos lidam com essas vozes.

Além disso, a trilha sonora foi montada baseada em sequências de acordes de canções de Radiohead, Joy Division, Tindersticks, PJ Harvey, Pixies e Ben Harper, bandas que influenciaram Sarah Kane.

Segundo Laerte Mello, o diferencial da montagem é descrever o estado de depressão e os tratamentos recebidos, não só por meio do texto, mas também pela dança contemporânea e por imagens de vídeos. A narrativa começa com o primeiro tratamento com drogas e atinge o pico de uma crise que a leva a uma tentativa de suicídio. Segue por sessões de eletrochoque, passa por um momento que parece ser uma recuperação, mas culmina com a morte fulminante.

Sarah Kane foi a mais polêmica e corajosa dramaturga britânica surgida na década de 1990. Deixou quatro peças de tirar o fôlego, colando o amor romântico a camadas de drogas, cenas de incesto, horrores de guerras, com suas devastações e mutilações humanas. Às 19 horas das segundas-feiras, a Fatal Companhia vai promover a leitura de todos esses textos, além do roteiro do curta Pele, também de Sarah.

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