Robert Schwenck/Divulgação
Robert Schwenck/Divulgação

A doce quebra da tradição

Um Violinista no Telhado ganha montagem nacional fiel à da Broadway

Ubiratan Brasil / RIO, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2011 | 00h00

Uma sequência natural no trabalho - depois de Hair, que prega a quebra de critérios e a total aceitação do semelhante, Claudio Botelho e Charles Möeller, dupla responsável pelos principais musicais montados no País recentemente, partem agora para Um Violinista no Telhado, que estreia amanhã no Teatro Oi Casagrande, no Rio. "Assim como em Hair, também o Violinista deixa o sol entrar ao tratar da importância da tradição", observa Möeller.

De fato, considerado um dos grandes musicais dos anos 1960 (foi o primeiro da história do teatro americano a ficar em cartaz por mais de sete anos), Um Violinista no Telhado parte das tradições judaicas para mostrar sentimentos mais gerais, como amor à terra em que se vive e filiação. Inspirado nos tradicionais contos de Sholom Aleichem, o musical conta a história do leiteiro Tevye, morador de Anatevka, um vilarejo judeu encravado na Rússia czarista, no início do século passado. Pai de cinco filhas, ele se vê diante de uma crise quando elas desafiam a tradição ao recusar casamentos arranjados. "Trata-se do primeiro musical americano em que não há glamour como seus antecessores, ou seja, todos os personagens são pobres", lembra Botelho.

De forte cunho autobiográfico, Tevye revela-se um homem moderno ao aceitar as reivindicações das filhas, ainda que se mantenha fiel à maioria das tradições. Assim, apesar de ser considerado o Rei Lear dos musicais, Um Violinista no Telhado apresenta particularidades. "As filhas fazem com que Tevye se questione sobre o próprio amor dedicado à mulher", comenta Möeller.

Com canções de Jerry Bock e Sheldon Harnick e a celebrada coreografia de Jerome Robbins (mantida na montagem brasileira), o musical estreou na Broadway em 1964 e ganhou uma versão cinematográfica em 1971. A primeira teve Zero Mostel no papel principal, enquanto para a tela grande o eleito foi Topol. Não foram escolhas ao acaso, garante Botelho, também supervisor musical. "Tevye exige uma das maiores entregas vocais de personagens masculinos entre os musicais da Broadway", explica. "Suas canções se alternam entre temas judaicos suaves e bem-humorados (como If I Were a Rich Man), passando por fortes e dramáticos solilóquios e chegando ao extremo lirismo em um emocionante dueto com a mulher Golda (Do You Love Me?)."

Assim, na versão nacional, era preciso manter a tradição. Audições foram realizadas e o escolhido foi justamente o preferido de Möeller e Botelho: José Mayer. Mais conhecido como galã de telenovelas, ele já desejava estrelar um musical. "Em 2002, ele foi muito bem na audição que fizemos para Folies, de Stephen Sondheim, que infelizmente não saiu do papel", conta Möeller. "O convite foi mantido, mas sua participação nas novelas não permitia, até surgir agora uma brecha."

Com alguma experiência no teatro musical - em 2007, cantou algumas canções de Catullo da Paixão Cearense em Um Boêmio no Céu -, Mayer revela-se perfeito como Tevye, alternando drama e humor com precisão e, importante, exibindo voz potente e aveludada nas longas canções do Violinista. É justamente seu carisma que torna factível o personagem dividido entre a tradição e o progresso.

Mais ambicioso projeto da dupla Möeller/Botelho, Violinista tem investimento de R$ 7 milhões para manter intactas as características originais: elenco de 41 atores (de 6 a 78 anos), 160 figurinos, 13 cenários e orquestra de 17 músicos. A produção, como de hábito, está com a empresa Aventura que, desta vez, associou-se à produtora paulista Conteúdo Teatral, detentora dos direitos da montagem.

Inspiração

Na preparação do musical, Charles Möeller inspirou-se na obra de Chagall. "Ele era um grande observador da periferia czarista", afirma o diretor, que mantém em cena o quadro do pintor.

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