A doce alquimia da cantora Yael Naim

Yael Naim canta em inglês, francês e hebraico, toca violão, piano, guitarra, ukelelê, conta histórias que não têm finais e vai do blues ao rock, do folk ao jazz em uma levada que poderia durar a noite inteira que ninguém reclamaria.

O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h23

A cantora franco-israelense se apresentou no Bourbon Street, na noite de anteontem, acompanhada do notável David Donatien (bateria; ele também toca piano em dado momento do show) e do discretíssimo Daniel Romeo (baixo), e exibiu uma força e potência vocal impressionantes. Ela poderia tranquilamente ganhar a vida cantando neossoul, ao estilo de Joss Stone, ou blues, como Brittany, do Alabama Shakes. Seria baba pra ela. Mas seu desafio é o de traduzir, não o de reencarnar.

Yael cantou ao piano uma versão de Umbrella, de Rihanna, que - no universo paralelo das reinvenções - só encontra equivalente na versão de Satisfaction, por Cat Power. O público ficou boquiaberto com a alquimia (sem a menor cerimônia, ela faz isso também com outras obras do rock e do pop, como Smells Like Teen Spirit, do Nirvana).

Yael virou uma mania com um hit instantâneo, New Soul, que ela tocou no Bourbon regendo o "coral" do público como uma maestrina. Canções como Come Home (primeira música do álbum She Was a Boy, de 2011), que ela descreve como uma sensação de exílio permanente, foi a demonstração de que Yael necessita envolver o público em sua viagem emocional para sentir que sua arte é efetiva. Ela conta que, há algum tempo, vivia em Paris (onde nasceu, filha de pais judeus da Tunísia), mas aí houve um momento em que os pais a chamaram de volta a Israel - justo quando ela já estava chamando Paris de minha casa de novo.

Nesse mundo que poderia ser de divisão cultural, Yael cuida de fazer um amálgama, aproximar distâncias. Paris é esse denominador comum, por isso uma canção em hebraico, Paris, com pinta de balada de Keren Ann, para asfaltar a ponte entre os mundos. Quando ela é bluesy, não se fia apenas na transcrição dos legados de Billie Holiday ou Etta James, mas vale-se de sua própria tradição hebraica para cantar. Ainda assim, evoca tremendamente Billie.

Há um clima de vaudeville em parte das composições de Yael, como The Only One, tocada ao piano naquela levada de música low fi típica da nova música francesa. Yael é tipo "Joni Mitchell com o charme do dixieland", anotou a Entertainment Weekly. É engraçado, mas não é preciso. Yael pode até cantar algo aparentado de Lily Allen que não vai soar pastichosa (é exatamente o que acontece em Stupid Goal).

Há muita melancolia (Lonely) em seu repertório, mas não aquela melancolia dark, sem esperança. Em Lonely, a cantora exibiu um alcance vocal privilegiado, de rara comparação hoje em dia. Um dos momentos mais bonitos é quando Yael canta Never Change ("Não tenha medo de ficar ao meu lado", diz o refrão), o violão displicente, o discurso doce e firme de garota independente em busca de um lugar no mundo.

Yael Naim canta neste domingo à noite em Paraty, de graça, na praça, dentro da programação do Bourbon Festival Paraty. Caso os senhores estejam pelas imediações, guardem um momento para ouvi-la. Sua noite vai ficar mais macia e incrivelmente longa. E agradável.

Crítica: Jotabê Medeiros

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