A disparidade entre conteúdo e forma

Começo por uma questão banal: onde está a modernidade de Munch?

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h09

Não é banal, mas complexa. Prova disso é que fizemos uma exposição a esse respeito, dividida em 12 temas. Nossa visão é de que, sim, Munch era moderno no que diz respeito ao uso das ferramentas modernas. Ele usou, por exemplo, a fotografia e o cinema, que frequentava. Por meio do cinema, ele descobriu a imagem dinâmica, que sai das telas, e que se tornou uma de suas características. Tudo isso lhe serviu como uma nova fonte de inspiração.

Munch é tido por historiadores da arte como um pintor do século 19, identificado com o naturalismo e como precursor do expressionismo. Onde ocorre a travessia em direção à modernidade?

Trata-se de uma evolução. Ele teve, em 1908, uma depressão nervosa. Alguns pesquisadores apontam que, após essa crise, que marcou seu retorno à Noruega, depois de viver na Alemanha e França, ele se torna um pintor moderno. Mas, na nossa concepção, Munch já vinha constituindo sua modernidade. Ele já se inspirava na fotografia, o que se revela nas imagens que atraíam a atenção dos espectadores para o pano de fundo de suas telas. Com sua relação com outras artes, como o cinema, Munch radicaliza essa relação com a modernidade.

Munch é conhecido por O Grito, uma tela que reforça a imagem de pintor abalado por sofrimento psíquico. Até onde isso teve impacto em sua obra?

Não podemos negar seus problemas psicológicos, causados pela depressão. Sua infância em especial foi marcada pela ideia da morte, pela perda da mãe aos 5 anos e da irmã aos 14. É inegável que ele traz consigo essa tristeza, essa amargura que é fonte de depressão. Mas, após voltar à Noruega, ele torna sua obra mais leve. A diferença é notável. De qualquer forma, um artista que sofre de depressão não significa uma obra pesada, que reflita a depressão. O trabalho de Munch não pode ser reduzido apenas a esse perfil psicológico. Ele vai muito além.

A exposição é construída na ideia do Moderno. Se a "evolução" existe, talvez ela torne Munch um pintor eclético, que soube adaptar-se a seu tempo sem se filiar às grandes escolas. Nesse sentido ele seria bastante pós-moderno, não?

(Risos) É preciso fazer a distinção entre a forma e o conteúdo. Na forma, Munch é mais moderno. Mas no fundo sua pintura não mostra engajamentos políticos ou radicalismos de nenhuma forma. Como disse, sua modernidade está na forma, na maneira como ele usava novas técnicas, se inspirava em novas artes. Mas é verdade que seus motivos não tinham o mesmo grau de modernidade. / A.N.

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