Joelson Paiva/AE
Joelson Paiva/AE

'A discussão é: Quais filmes queremos fazer?'

Prestes a estrear 'O Bem Amado' na TV, Guel Arraes conversou com a coluna

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

Transitar entre a TV e o cinema nunca foi um problema para Guel Arraes. O diretor, produtor e roteirista convence qualquer um que tente dissuadi-lo de fundir ambas linguagens. "Há produtos que podem servir como espetáculos televisivos mais sofisticados e, ao mesmo tempo, cinema de divertimento popular", afirma. Sua trajetória prova que ele tem sua razão. Depois das séries O Auto da Compadecida, Caramuru - A Invenção do Brasil e Lisbela e o Prisioneiro terem sido adaptadas para a telona, Arraes faz agora caminho contrário. Dividiu seu último longa, O Bem Amado, em quatro capítulos que começam a ser exibidos a partir de amanhã na Globo. Pernambucano, simpático e invejado por boa parcela da população que sonha em fazer TV com qualidade, ele não se rende às unanimidades. E fala, sem papas na língua: "Tropa de Elite não é um filme, é um fenômeno social". A seguir, trechos da entrevista.

Como foi a adaptação de O Bem Amado para a TV? Por que a decisão foi tomada antes das filmagens?

Não é muito difícil fazer essa passagem do ponto de vista técnico. Acrescentamos a um longa de 1h40 uns 25 minutos para que ele virasse uma série de quatro capítulos. Na verdade, fizemos um roteirão mais largo, como se fosse uma minissérie, e dentro dele, recortei o filme. Por isso ele também ficou mais ágil.

A linguagem dos dois veículos não é bem diferente?

Eu já tinha feito a tabelinha cinema/TV. Sou elogiado e criticado por trabalhar filmes nos dois formatos. Mas acredito que há produtos que podem servir às duas linguagens: como espetáculos de TV mais sofisticados e, ao mesmo tempo, cinema de divertimento popular. Guerra nas Estrelas, de George Lucas, é um seriado também. Já Uma Mulher é Uma Mulher, do Godard, não.

A cada ano cresce o número de seriados nacionais. Como vê esses investimentos?

Estão cada vez maiores. Acho que houve influência das sitcoms americanas. Os Normais e A Grande Família, por exemplo, pegaram onda em Friends, Seinfeld etc. A grande mudança é que hoje em dia há possibilidade de fazermos temporadas. Isso ajuda tecnicamente. O tamanho passa a ser de 30 min. Porque dramaturgicamente um episódio de 45 min dá o mesmo trabalho de escrever um filme de 1h10. Já meia horinha é só sobre alguma situação.

Sendo você diretor de históricos humorísticos, como TV Pirata, o que acha do CQC e do Pânico?

Gosto muito do Marcelo Tas, com quem já trabalhei no Programa Legal. Sempre gostei desse jornalismo meio encenado. De uma certa maneira, uma ala do programa tinha a ver com isso: misturar humor e jornalismo. Hoje em dia vejo menos. Acompanho mais Bruno Mazzeo, Marcelo Adnet e Fábio Porchat. Esse pessoal jovem que faz humor de texto.

Você sente resistência da parte dos cineastas por ser da TV?

Quando fazia só TV, era considerado o cara que levou um pouco de cinema para aquele ambiente. Quando eu me meti a fazer filmes, virei o contrário: o homem que sujou o cinema com TV.

Como reagiu às críticas?

Foi uma surpresa. Mas a seara não é cinema ou TV. A discussão é filmes para público ou de arte. E o mercado comporta os dois. Comparo o cinema popular com a MPB. Olha o leque enorme de intérpretes e compositores que temos. Antes da retomada, o que fazia sucesso de bilheteria eram filmes da Xuxa ou de Os Trapalhões. Hoje há público tanto para Se Eu Fosse Você quanto para Cidade de Deus.

Para você, Tropa de Elite 2 é cinema popular e artístico?

Tropa não é nem mais um filme. É fenômeno social. Sem discutir sua qualidade cinematográfica, acho que respondeu a uma demanda da sociedade e isso é o que faz ele ser tão visto. É uma ideia mais de produtor que de criador. Fazer o filme certo na hora certa.

Acha que daria para fazer uma boa série com o Tropa?

Não sei se seria boa, mas com certeza arrebentaria.

E Lula O Filho do Brasil, assistiu? E o que achou?

Assisti, sim. E acho a mesma coisa que Tropa. Saber que aquele cara era presidente na hora que assisti foi emocionante. A vida dele impressiona muito. Mas é o que digo: é mais que um filme e menos que um filme.

Acha que foi boa escolha para representar o Brasil no Oscar?

Dos filmes que havia ali, Lula O Filho do Brasil tinha grande dimensão. Ficou parecendo chapa branca porque é a história daquele presidente. Mas abstraindo isso, se é que é possível, não achei uma escolha absurda. Acho que o filme terá outra chance na TV, agora que Lula já saiu da presidência. Talvez o maior concorrente do longa fosse o próprio personagem, sempre no foco.

Está otimista com a nova ministra da Cultura, Ana de Hollanda?

Tenho sorte. Quase 99% do que já produzi foi na TV, lugar onde não dependo de verba pública. Então, pessoalmente, não tenho expectativas. As pessoas falam como se o cinema brasileiro dependesse do governo. Acho que tem de depender mais dos artistas. A discussão deveria ser quais filmes queremos fazer e não quem será o ministro da Cultura.

Você viveu no exílio com seu pai, o ex-governador Miguel Arraes. O que está achando de ter uma presidente que também foi vítima do governo da ditadura?

Só tenho opinião de cidadão. Aquele período teve, de fato, grande impacto para mim. Conheci muitas pessoas que foram exiladas e presas. E o curioso é que vejo poucos filmes e livros sobre esse período. O pouco que foi feito, infelizmente, não deu certo. Qualquer filme argentino sempre tem menção à ditadura militar. Aqui não. E tudo isso foi muito presente na minha vida, pelo menos uns 15 anos, numa época de formação da personalidade. Talvez eu tenha até superdimensionado todos esses fatos históricos, mas me impressiona que se fala muito pouco de tudo isso.

Acredita que os arquivos da ditadura serão abertos?

Sinto que há uma tendência geral de se pedir para esquecer o que aconteceu. Entretanto, Dilma parece não esquecer (risos). Ela nem poderia. Acho que é preciso achar uma medida. Realizar a anistia foi um consenso na época. E de lá para cá, andamos muito bem, na minha opinião. Mas isso pode ser revisto. Eu, particularmente me identifico com a posição da Dilma.

Quais são seus próximos projetos e lançamentos?

Estou ajudando muito no programa da Regina Casé (Esquenta), por quem tenho grande admiração e com quem trabalho já há muitos anos. Além disso, tenho coisas em andamento, mas nada pessoal, tudo como produtor.

MARILIA NEUSTEIN

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