A diretora e seu ator, sem medo de ousar

Malu de Martino sabe que arrisca bastante em Como Esquecer. Ao se interessar pelo livro homônimo de Myriam Campello, ela não se preocupou muito com o fato de ele tratar de uma ligação homossexual. "A história trata do sofrimento que experimentamos ao perder alguém querido. Me pareceu muito sensível e bonita, e isso não tinha nada a ver com o fato de a personagem ser lésbica. Não me intimidou." Mas assim como foi uma batalha conseguir financiamento por meio das leis de patrocínio - "As empresas ainda têm muito preconceito e resistem em associar sua marca ao universo GLST" -, ela sabe que agora terá outra guerra pela frente.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

"É preciso motivar o público hetero e, ao mesmo tempo, atingir a comunidade GLST. Os gays e as lésbicas querem se ver? Querem se reconhecer nas telas?" São perguntas que também animam (preocupam?) a parceira de Malu, na arte e na vida, Elisa Tolomelli. A produtora está animada. "Como Esquecer não é um filme grande, com vocação para blockbuster, como Tropa de Elite 2. Mas nas pré-estreias pagas tivemos sempre ótima resposta do público, independentemente de orientação sexual. O importante é motivar as pessoas. Quem vê, gosta."

Assim como não se intimidou com o fato de a temática do livro que queria adaptar ser gay, Malu não teve problema nenhum em recorrer a atores globais, como Ana Paula Arósio e Murilo Rosa. "O Murilo é amigo, está comigo em todos os projetos, desde o curta Ismael e Adalgisa. Eu queria a Ana Paula, achava que ela tinha condições de encarar o desafio da personagem e também seria uma escolha um tanto inesperada para o público. Mas a Ana Paula, que é um doce de pessoa, talentosa e muito participante, também vive fechada na sua privacidade. Enviei o roteiro e não tive resposta alguma. Falei com o Murilo e ele fez a ponte. Foi o Murilo que trouxe a Ana Paula, mas eu já a queria antes."

Surpresa. O próprio Murilo conta que sabia do potencial de Ana Paula e que ela iria fundo na personagem. Mesmo assim, admite que se surpreendeu. "Ela mergulhou tanto que depois da filmagem me confessou ter experimentado um vazio, uma saudade da equipe, da casa em que filmamos, em Pedra de Mangaratiba." Criar o amigo gay da protagonista, Hugo, não foi fácil, mas foi compensador. "O Hugo tem um temperamento diferente, eu diria quase que oposto ao de Júlia. Ela sente prazer em sofrer, em recusar a vida, ele é alegre, extrovertido e não usa uma nova relação como muleta." O repórter observa que Hugo não é uma caricatura de gay, mas volta e meia um gesto, uma entonação nos lembram de sua orientação sexual.

"Era o bacana do personagem, esse detalhe, essa sutileza." Acabar com a caricatura já é um bom passo rumo à representação mais acurada do universo GLST. "Veja que hoje em dia é rara a novela que não tem um personagem gay. O público aceita a diferença, acho que estamos avançando. A própria realização de Como Esquecer, apesar das dificuldades, marca um avanço", reflete a diretora. E Malu de Martino acrescenta - "Tivemos parcerias importantes do Banco do Brasil e da Petrobrás, mas o filme não teria sido feito sem a Secretaria de Políticas para as Mulheres."

O filme tem uma cena caliente entre Ana Paula Arósio e Arieta Corrêa, que faz Helena, mas nenhuma cena entre Hugo e Nani, seu novo namorado, interpretado por Pierre Baitelli. O garoto, de qualquer maneira, aparece em nu frontal, numa cena que causou frisson, durante a exibição do filme no Festival do Rio. Malu de Martino reconhece que se interessa mais pelo universo feminino, mas não teria problemas em filmar a cena de sexo entre os homens. A questão é que não era necessária. "Do jeito que a história é contada, a cena de sexo da Júlia com a Helena é uma forma de mostrar a tentativa da professora de sair da depressão que tomou conta dela", diz a diretora.

Malu de Martino sabe que está assinando com Como Esquecer seu filme mais maduro. O curta Ismael e Adalgisa tinha um formato clássico, Mulheres do Brasil era em esquetes - e muitos críticos deploraram a superficialidade do formato televisivo. Ela explica - "Cada projeto tem o seu formato, exige uma maneira de abordar a história e os personagens. Me sentiria desconfortável fazendo sempre a mesma coisa. Como Esquecer é mais intimista. Desde o começo, nossa proposta (de Elisa e dela) era fazer o filme dentro dos personagens."

A diretora já prepara um próximo trabalho e quem acompanha suas ficções talvez se surpreenda ao saber que ela vai fazer um documentário. "Fiquei apaixonada pelos diários de Margaret Mee retratando a flora amazônica." Por isso mesmo, ela está prestes a embarcar na aventura de Margaret Mee e a Flor da Lua. Murilo Rosa curte o seu momento cinema. Além do intimista Como Esquecer, ele já tem outro filme pronto, que estreia em dezembro - Aparecida, de Tizuka Yamasaki. "Está muito bacana", ele anuncia. "Quem espera um filme sobre religião vai descobrir outra coisa, muito mais rica e complexa." Tizuka, como diretora, é diferente de Malu, mas ambas sabem o que querem. "Mais importante - elas sabem cooptar a gente para conseguir o que querem."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.