A difícil poesia concreta de uma distopia urbana

Crítica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

Para os paulistanos, que nos acostumamos a ver o Minhocão como uma aberração urbana, o documentário Elevado 3.5 reserva algumas surpresas. A primeira delas é que alguns dos moradores daqueles apartamentos que o circundam gostam dele, e são radicalmente contra qualquer ideia de demolição, como anda sendo cogitada pelo alcaide. Outra constatação, que se não chega a ser surpreendente pelo menos parece bastante agradável é saber que, em torno do monstrengo, com seus trânsito e poluição infernais, a vida continua com seu curso, com seus personagens e - por que não? - com a dose de lirismo e beleza que a cidade ainda permite.

Todo o segredo reside em como colocar a câmera e como estabelecer empatia com as pessoas. De certa forma, em Elevado 3.5 ecoa o Eduardo Coutinho de Edifício Master. Se Coutinho encontrou seu microcosmo naquele prédio de apartamentos pequenos em Copacabana, os diretores João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo, descobrem seus melhores tipos humanos em torno daquela cruel estrutura de concreto. Eles podem ser um silencioso senhor de idade japonês, com o cachorrinho, a antiga militante meiaoito, cheia de recordações, os dois alfaiates, a travesti, o pedreiro, o porteiro, o boêmio envelhecido. Gente que veio de todos os lugares e compõe essa caótica distopia urbanoide chamada São Paulo.

Registrar a poesia concreta desta cidade não é para iniciantes. É preciso furar a desordem aparente e ir além, ao que sobrevive em meio a tanta agitação, contradições e problemas. Esse melhor - a diversidade de origens, sotaques e mentalidades, que poucas metrópoles podem exibir - é o que a humaniza. E empresta um toque caloroso até mesmo a uma evidente imprudência arquitetônica.

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