João Caldas/Divulgação
João Caldas/Divulgação

A difícil e silenciosa relação familiar

Ruy Cortez, sobrinho de Raul, dirige a peça 'Nomes do Pai', que evoca textos de Kafka e Rilke

13 de maio de 2010 | 17h44

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Nos anos 1990, então aspirante a ator do Teatro Escola Célia Helena, Ruy Cortez foi sondado pelo tio famoso, Raul Cortez, para montar um espetáculo que unisse dois textos clássicos da literatura: Carta ao Pai, de Franz Kafka, e Cartas a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke. "Raul tinha um grande fascínio pelas palavras e, na sua concepção, ele leria os trechos do Rilke enquanto eu ficaria com os de Kafka", relembra Ruy que, com a indefinição do projeto ("Eu me direcionei para a direção, enquanto ele se envolveu com outras peças"), guardou a ideia para uma nova oportunidade - como a que acontece amanhã, com a estreia de Nomes do Pai, no Teatro Ágora.

 

Com o passar dos anos, o projeto amadureceu e tomou novos rumos. O primeiro e mais significativo é a ausência de palavras: em cena, os atores Fábio Takeo e Rafael Steinhauser comunicam-se por gestos e expressões, engrandecidos pela iluminação e por uma trilha sonora especialmente composta. Na essência, o conflito no relacionamento entre pai e filho, tema que inspira outra peça em cartaz, A Grande Volta. "Esse era o ponto de partida do trabalho que o Fábio e o Rafael queriam fazer quando me convidaram para o projeto, em 2007", conta Ruy, que imediatamente se lembrou da parceria não realizada com Raul.

 

Assim, as obras de Kafka e Rilke forneceram a base do processo colaborativo. Mas quando surgiu a ideia de não se utilizar a palavra falada? "Foi a partir do texto do Kafka, que é uma carta não enviada ao pai. Assim, essa comunicação não realizada nos inspirou a fazer o espetáculo sem palavras." Escrito em 1919, o texto que resultou no livro Carta ao Pai é um longo desabafo em que Kafka responsabiliza o pai por sua incapacidade de viver, casar e amar como os outros - sobrou-lhe a literatura, portanto, para exorcizar um grito ameaçado de ficar parado no ar.

 

Já as Cartas a Um Jovem Poeta, escritas entre 1903 e 1908 com a intenção de revelar ao aspirante Franz Xaver Kappus o intrincado mundo interior do escritor, apontam a solidão como a condição única e verdadeira para a criação de uma obra autêntica. Um tema que, de alguma forma, caminha em paralelo ao torturante universo literário do autor checo.

 

A transposição para a cena foi meticulosa. Ruy conta que ele e a dupla de atores criavam uma cena para cada página dos livros, sempre sem usar a voz. "Logo, percebemos que o texto do Kafka era mais teatral, portanto, acabou predominando", explica. "Rilke é quase um negativo de Kafka e, como um iluminava o outro, escolhemos o caminho de examinar a função do pai e as questões da paternidade e, por extensão, a cultura patriarcal."

 

DVD. Depois que um punhado de cenas tinha sido criado, o grupo decidiu convidar o dramaturgo Luis Alberto de Abreu para reestruturá-las e dar-lhes uma continuidade - para isso, um disco de DVD com imagens do trabalho em estado bruto lhe foi enviado. "A boa surpresa é que o Abreu, em vez de simplesmente transmitir suas coordenadas, preferiu participar ativamente do processo, participando de nossas reuniões", observa o diretor.

 

A construção de uma dramaturgia sem palavras foi, para um escritor aclamado justamente pela coerência e criatividade com que trabalha com elas, um desafio. "O que me seduziu nesse trabalho foi o material teatral já desenvolvido pelos atores e pelo diretor, a partir de Kafka e Rilke: cenas sintéticas, delicadas, belas, em que qualquer palavra pareceria uma intromissão indevida", comenta o dramaturgo.

 

Para ele, tudo se torna escrita: a intensidade e o tempo de cada gesto, os elementos cênicos e sua manipulação. "O suporte da escrita se transforma no corpo do ator e suas manifestações. Foi aí que trabalhamos, reconstruindo cada cena e nela procuramos seu núcleo, seu sentido, sua função no contexto do espetáculo; desenvolvemos as relações dramáticas já presentes, alteramos sua intensidade e objetivos; rastreamos e evidenciamos as trajetórias dos personagens; enfim, reorganizamos todo o material."

 

O processo se repetiu durante a criação da trilha sonora de Henrique Eisenmann e Tomaz Vital - a partir da tentativa de expressar musicalmente a concisão e a secura da escrita kafkiana, eles criaram um melodia minimalista, executada ao vivo no piano, com eles se revezando a cada apresentação. "A criação inspirou-se tanto no que se produzia naquela época (início do século passado), que eram composições modernistas, como nas cantigas do ensino judaico que marcou a educação de Kafka."

 

A mesma filosofia de criação em paralelo inspirou a cenografia de André Cortez e a iluminação de Fábio Retti. Mais que isso: a discussão sobre a paternidade proposta pelo projeto incentivou o filósofo Luiz Felipe Pondé a organizar encontros com pensadores, que ocorrerão em julho e agosto.

 

Pondé cuida justamente do primeiro, no dia 25 de julho, quando também falará Renata Martins. Em seguida, os debates serão conduzidos por Enrique Mandelbaum, João Carlos Guedes da Fonseca, Lúcia Cortez, Lílian Quintão, Cássia Barreto e Ricardo Goldenberg. "Curiosamente, todos inspirados em um espetáculo construído a partir da ausência da palavra", diz Ruy.

 

Nomes do Pai - Teatro Ágora. Sala Gianni Ratto (88 lug.). Rua Rui Barbosa, 672, Bela Vista, telefone 3284-0290. Sáb., 18h; dom., 17h. Até 4/7.

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