A difícil arte de recuperar obras de arte

O restauro de obras de arte é umtrabalho de bastidores, minucioso e, sobretudo, invisível. Namaioria das vezes, o público que se depara com as belas telas deRenoir ou os fascinantes ícones russos do século 16 expostos nacidade não se lembra que esse deleite só se tornou possívelgraças ao trabalho de profissionais especializados, conhecidoscomo restauradores-conservadores, que conhecem a fundo comoretocar pinturas, suturar um rasgo de tela e até mesmo resgatarantigas imagens de igreja ou um monumento histórico. Infelizmente essa profissão ainda é pouco reconhecida noPaís. Apesar de cuidarem do patrimônio histórico, de importantesacervos de museus, de prolongarem a vida de tantas obras de arte, não há cursos de graduação nessa área em nenhuma universidadeou faculdade brasileira. O mercado exige profissionais.Colecionadores, marchands e artistas concordam que esse trabalhoé cada vez mais indispensável, mas o que ocorre é que muitasvezes são oferecidos cursos relâmpagos, com apenas dias deduração e que entregam, aos montes, certificados para qualquerpessoa interessada em restauro. Um restaurador-conservador não é um artista. Não tem opoder de imitar o criador da obra. Mas seus cuidados técnicospreciosos e minuciosos, na hora de restaurar uma obra de arte,fazem dele, sim, um tipo de artista. "Nosso trabalho não é só orestauro, o mais importante é conservar as obras antes dedeixá-las chegar a um estado que necessite do restauro",esclarece Valéria de Mendonça, coordenadora do Ateliê deRestauro Emanoel Araújo, na Pinacoteca do Estado. No trabalho de um restaurador-conservador, o primeiropasso é o levantamento de todos os problemas de degradação daobra. Uma pesquisa sobre o artista, as técnicas empregadas porele, seu processo de produção e suas características são o modode se chegar à conclusão de qual a melhor técnica a ser usada. "Nossa atuação é resgatar a leitura original de umtrabalho, interromper qualquer tipo de processo de degradação,mas nunca pintar ou esculpir como o artista", diz Raul deCarvalho, do mesmo ateliê de Valéria. "Nossa intervenção épuramente técnica, realizada por meio de pigmentos naturais etantos outros materiais específicos, como adesivos, resinas,vernizes, solventes e massas a base de cálcio, como regra,reversíveis." Para Beatriz Pimenta Camargo, diretora do Masp euma das mais importantes colecionadoras do País, "o maisimportante é a conservação. É melhor deixar a obra com as marcasdo tempo do que fazer um restauro malfeito." "A gente trabalha com produtos que possam ser removidos, já que futuramente pode ser que sejam pensadas outras melhoressoluções para o restauro", explica Valéria. Entre os problemasde uma obra, há o craquelamento, mais conhecido como rachadurasna tela, provenientes da própria manufatura da obra pelo artista, ou seja, pelo exagero no uso de solventes, ou provenientes dopróprio movimento natural de contração e dilatação do tecido datela. Há também sujeiras, vernizes que se oxidam e devem serremovidos, rasgos que devem ser suturados, desintegraçãocromática e desnivelamento das camadas de tinta, como secomeçassem a sair escamas de matéria. Como o restaurador não deve imitar o gestual do artista,por meio de um pontilhismo ele preenche a lacuna, criando umaretícula que possibilita ao público ver, novamente, a obra de ummodo íntegro. Além disso, o trabalho engloba cuidar dos suportes, por exemplo, retrabalhar um chassi quebrado. "É apaixonanteretornar uma obra toda danificada ao seu estado integral",comenta Valéria. "Mas a preocupação de instituições e decolecionadores é conservar as obras, o patrimônio." Por exemplo, o acervo da Pinacoteca do Estado conta comaproximadamente 5.600 obras, entre telas, papéis, objetos,mobiliário e esculturas. O que pouca gente sabe é que, dessacoleção, cerca de 1.100 obras ficam expostas e as restantes,armazenadas em uma área chamada de reserva técnica. Nesse localclimatizado, elas ficam guardadas em um mobiliário adequado esão controladas a iluminação e a umidade desse ambiente. Umaequipe formada por quatro restauradores-conservadores cuidadesse acervo e toda essa iniciativa tem o apoio da FundaçãoVitae. O próximo passo da equipe será a restauração de toda acoleção de papéis da instituição. Aliás, esse é o setor que vemapresentando o maior dinamismo. Segundo o marchand Flávio Cohn,da Dan Galeria, há um crescimento de cerca de 10% no volume deobras de papel restauradas a cada ano. Ele reafirma aimportância dos cuidados simples para preservar as obras eatesta que parte significativa do trabalho do marchand hoje éaconselhar colecionadores sobre como preservar seu patrimônio. Além da conservação, os restauradores que prestamserviços a particulares muitas vezes também são responsáveis porcatalogar e mapear todo o acervo, aconselhando sobre os cuidadosdiários a serem tomados. "O colecionador particular deve ter aconsciência de que a obra que possui é um registro de um período, um bem de todos", diz Valéria. É possível montar um bom ateliê de restauro e umareserva técnica investindo um montante de cerca de R$ 20 mil.Isso foi o que a família do artista plástico Manabu Mabeinvestiu para construir um ateliê no instituto que leva seunome. Além de cuidar das obras do artista, o ateliê recebetrabalhos de particulares e de outros museus. Dois restauradoresfazem todo o trabalho, Ana Lucia Nakandari e Manuel Ley. Oartista plástico Jorge Tsuchimoto coordena o instituto. Os dois restauradores têm seus ateliês particulares emuitas vezes são chamados por museus para ajudar quando hágrandes exposições. Segundo Ana Lucia, formada em ArtesPlásticas e agora considerada uma das melhores retocadoras, asobras de particulares são as que chegam mais danificadas. "Asmais difíceis de se restaurar são as obras contemporâneas, jáque há muita mistura de materiais na sua manufatura", diz AnaLucia. O escultor Sérgio Romagnolo acredita, no entanto, queessas dificuldades estão cada vez menores e que os bonsprofissionais do mercado estão cada vez mais a par dastecnologias e materiais usados pelos artistas contemporâneos,até mesmo no caso de materiais considerados mais frágeis ouefêmeros.Formação - No Brasil, a profissão derestaurador-conservador não é reconhecida pelo MEC, um problema"grave", uma "incógnita", como diz a espanhola Maria de losAngeles Fanta, presidente da Associação Paulista deConservadores e Restauradores (APCR). A questão já foi tema deseminários da Associação Brasileira de Conservadores eRestauradores (Abracor) e agora se tornou uma luta defendida portodos os profissionais da área. Segundo Maria de los Angeles, países como Colômbia, Cuba, Espanha e Alemanha possuem cursos de restauração e aqui noBrasil a APCR, que conta com cem associados, está trabalhandocom um grupo da Unicamp para a implantação de um curso degraduação. A Faap também mostra interesse no assunto.Vale dizer que em Belo Horizonte a Universidade Federal de MinasGerais possui especialização em restauração, mas não graduação. Há cerca de dois anos e meio, o Museu de Arte Moderna deSão Paulo possuía um curso privado e o professor DomingoTellechea, na extinta Escola do Instituto Paulista de Restauro,formou a maioria dos profissionais presente, atualmente, eminstituições de todo o País. Agora, o que se oferecem são cursosrápidos, "de três dias", como diz Maria, ou ministrados "porpessoas que se dizem restauradores porque seu pai ou seu avô eraum restaurador", como ilustra Ana Lucia Nakandari. No mínimo,segundo a restauradora espanhola, um bom curso teria de ter doisanos e meio e o ideal seria que fossem com cinco anos de duração, já que a arte de restaurar "não é artesanato, mas umaprofissão técnica que requer conhecimentos de produtosquímicos". Como observa Valéria de Mendonça, os cursos no exteriorsão muito bons. "Mas nem sempre tratam da nossa realidade e asnossas obras estão aclimatadas e são produzidas dentro de nossarealidade, com nossos materiais." Muitas vezes, os critérios eas tecnologias importadas "não servem de imediato", explica arestauradora.

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