A difícil arte de intervir na cidade

A partir de hoje, cinco grandes contêineres serão objeto de uma monumental ação plástica no Memorial da América Latina - até domingo, com o uso de guindastes e através de cálculos de engenharia, os blocos serão configurados em 18 posições diferentes concebidas pelo escultor José Resende. Intervenção artística pública, em gigantesca escala, o trabalho não é uma atividade isolada. É etapa de um projeto ainda mais amplo, Canteiro de Operações, que Resende, o filósofo e curador Nelson Brissac Peixoto e a engenheira Heloisa Maringoni estão batalhando para realizar no ramal ferroviário da Mooca.

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2012 | 03h08

Há mais de um ano e meio o trio vem negociando a concretização de sua ideia inicial: promover intervenção com uma extensão de 1,2 quilômetro de vagões abandonados entre a Estação da Mooca e Estação Ipiranga como maneira de chamar a atenção para o grave problema de como lidar com a sucata ferroviária. "Existem 42 mil vagões abandonados no Estado de São Paulo que não foram removidos", diz Brissac. "O projeto mostra a complexidade que é atuar na cidade e ainda como uma intervenção artística pode colocar o dedo numa ferida urbana", continua o filósofo, que criou o Arte/Cidade.

Em maio de 2011, quando o Estado acompanhou Brissac, José Resende e Heloisa Maringoni à Estação Mooca, já se calculava que os cerca de 30 vagões que seriam objeto da ação artística estavam abandonados naquele local havia pelo menos dez anos. Os trens foram comprados pela empresa Gerdau, que autorizou a realização de ação escultórica - e educativa - com aquela "sucata", ou seja, a criação estética e técnica na qual os vagões seriam cortados, inclinados e movidos - somente depois seriam reciclados pela produtora de aço. "A MRS (logística, concessionária que controla a malha sudeste da rede federal) não permitiu, até agora, que fizéssemos o trabalho; dizem estar com medo da exposição pública do problema", conta Brissac.

Como ainda não foi possível realizar esse grande ato, o Canteiro de Operações teve de ser dividido em partes. "Não para substituir o que havíamos pensado, mas para indicar a extensão da área que pretendíamos transformar, cobrimos com tela os 1.200 metros de vagões abandonados que ali estão", explica Resende. Já as atividades com os contêineres no Memorial da América Latina, desenhadas pelo escultor e a serem realizadas com o aporte técnico de Heloisa, serão "experimento".

O projeto, contemplado pelo edital Arte na Cidade, da Secretaria Municipal de Cultura, será apresentado no sábado, às 11 h, no Memorial, quando serão lançados os seis números de jornal Canteiro de Operações, publicados pela Imprensa Oficial do Estado (com abordagens diversas e ensaio fotográfico da Cia de Foto).

"Intervir na cidade é um problema", diz Resende. "Na melhor das hipóteses, o que se pode esperar é surpreender o olhar para um momento de encantamento na dispersão da cidade, e dessa forma apontar que o olho pode ser inteligente e trazer sentidos ao mundo".

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