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A difícil arte de conviver na sociedade

O Homem ao Lado acomoda um grande tema em história mínima

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2011 | 00h00

O Homem ao Lado repõe em pauta um tema recorrente do cinema (e da vida): a convivência, muitas vezes problemática, entre diferentes. No caso, um arquiteto, que habita a única casa desenhada por Le Coubusier na América do Sul, e um tipo tão charmoso como abrutalhado, que mora ao lado. O filme é dirigido pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat. Mostra, ainda uma vez, como o cinema argentino é capaz de mover-se com desenvoltura das pequenas situações aos grandes temas.

No caso, trata-se de um fiapo de argumento. A coisa se resume ao seguinte. O arquiteto e professor universitário Leonardo (Rafael Spregelburd) sente-se perturbado quando o vizinho Victor (Daniel Aráoz) resolve abrir uma janela para aumentar a luminosidade de sua casa. Ora, a janela de Victor dá para a casa de Leonardo e este teme que o outro invada a privacidade de sua família.

Premissa interessante. Nas metrópoles ultrapoluídas (visualmente, inclusive) não se construiria mais nada se da janela de um imóvel não se pudesse espreitar o que se passa no interior de outro. No caso do arquiteto, ele julga que habita um mundo particular, e que sua casa, por ser uma raridade arquitetônica, não pode ser devassada pelo olhar do outro. Fazem parte de algo à parte, abrigados talvez da barbárie generalizada.

Ainda mais que Victor (na ótima interpretação de Aráoz) parece um tipo, digamos, "diferenciado", para usar a nova acepção dessa palavra, moldada pela elite paulistana. Não tem maneiras, parece ameaçador e usa um linguajar francamente inconveniente.

O filme se fará, basicamente, pelo duelo entre os dois homens. Quando isso acontece, uma pergunta inconsciente se estabelece para o espectador: "E com qual dos dois ficamos?" Uma das virtudes do filme será solapar qualquer opção fácil. Pode-se ficar inclinado ora por um, ora por outro, às vezes dando razão a ambos. O terrível, já disse alguém, é que todo mundo tem seus motivos e, por isso mesmo, viver em sociedade não é fácil. Essa discussão inteira vem embutida no subtexto do filme.

Por outro lado, há uma recusa em fazer dessa impossibilidade de consenso uma discussão acadêmica e chata. A dupla de diretores tem o bom senso de encaminhá-la para a sátira e, não raro, para a caricatura, como forma de dar ao filme a fina textura do humor. Pelo menos até certa altura da trama, quando então entramos num terreno que nada terá de engraçado, e que se apresenta de forma súbita ao espectador.

Claro que, passado o riso, ou o susto, o espectador será levado a refletir sobre problemas como a convivência entre diferentes, o autoritarismo social, a intolerância, o arraigado sentimento de superioridade social de alguns setores, etc. Pela via do pequeno, chega-se à colocação dos problemas mais prementes de coexistência em uma sociedade de diferentes. Ao mesmo tempo, coloca-se, em filigrana, outra dualidade fundamental em países como Argentina ou Brasil, que é a oposição entre o nacional e o cosmopolita. Não por acaso, o arquiteto apresenta-se como um cidadão do mundo, ao passo que seu antagonista veste-se com a roupa (metaforicamente falando) do argentino típico. Um é melhor do que o outro? Existem como formas puras? Podem viver no mesmo espaço? Questões debatidas por esse filme, que tira a riqueza de sua simplicidade.

Nesse sentido, Duprat e Cohn colocam-se na tradição dos novos cineastas argentinos, a de depurar temas e a forma cinematográfica de modo a fazer de seus filmes peças de maior eficácia. Podemos lembrar, por exemplo, de como Carlos Sorín (Histórias Mínimas e O Cão), Pablo Trapero (Família Rodante) e Leonardo Di Cesare (Buena Vida Delivery) tratam a crise argentina com contundência e economia de recursos. Pode ser o desempregado que encontra num cachorro uma esperança de vida, ou uma família que expõe seus problemas quando põe o pé na estrada, ou um jovem que vê sua casa invadida por uma fábrica artesanal de churros. Qualquer ponto de partida é válido para fazer um bom filme. Basta ter o dom mais raro - talento.

O HOMEM AO LADO

Nome original: El Hombre de al Lado. Direção: Mariano Cohn e Gastón Duprat. Gênero: Drama (Argentina/2009, 101 minutos)

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