A despedida lírica e franca de Ernesto Sabato

Só um grande escritor, como o argentino Ernesto Sabato, para nos oferecer, com uma mistura tão ajustada de sobriedade, lirismo e entrega, uma peça de despedida como esse Antes do Fim (Companhia das Letras, 165 págs., R$ 22). Sozinho, já sem a mulher, Matilde, e agora sem o filho querido, Jorge Federico, um homem sem sombra, amparado apenas na invisível Elvira, sua governanta, Sabato, à beira dos 90 anos, leva uma rotina cheia de restrições. Como já não pode ler, e escreve com dificuldades, refugia-se na pintura - uma paixão antiga, que realiza tardiamente, mas com grande fervor. Como não pode viajar, ele que sempre circulou pelo mundo com desembaraço, restringe-se ao espaço sagrado dos objetos antigos, das velhas fotografias, das recordações.E foi assim, sufocado, arrastando um longo passado e com a impressão serena de que lhe faltam apenas poucos passos pela frente, que Sabato escreveu esse livro magnífico, que em nada deve a seus melhores livros, como o romance O Túnel. É claro, grandeza aqui de outro tom, confessional, com aquela franqueza que os velhos se permitem para compensar o que já lhes foi subtraído, e mais que isso, com uma visão cósmica da existência - alçado a uma espécie de limbo metafísico, que fica além das crenças e das religiões, um firmamento sem deuses no qual só grandes homens conseguem tocar."Não detesto os homens, tenho medo deles", Sabato diz, citando Strindberg. E o que viveu, de fato, justifica essa afirmação. Sufocante muitas vezes, Antes do Fim não é um livro de leitura fácil, embora seja um livro de leitura comovente. Sabato está triste, muito triste, não só com a proximidade da morte (que ele sente como logo ali), mas sobretudo com as restrições físicas que o impedem de viver plenamente os dias que lhe restam, e mais ainda por causa do estado do mundo que agora se prepara para deixar. É um pessimista, da mesma linhagem de E. M. Cioran, o filósofo romeno de quem se sente espiritualmente tão próximo - entre outras razões, porque ele, Sabato, tem ascendentes na Albânia, um país bem próximo à Romênia de Cioran. Um filósofo não religioso que, apesar disso, acreditava que tudo se pode sufocar no homem, menos sua necessidade do Absoluto, a quem um dia foi visitar em Paris. Num mundo sem ilusões, acometido de uma grave dor metafísica, o pessimismo, a sensação constante de que tudo vai dar errado, parece inevitável. Durante quatro horas, os dois conversaram sobre isso.Todo o pessimismo de Sabato tem dois focos: primeiro, sua grande desilusão com a utopia socialista, ele que, na juventude, foi um militante comunista, mas que, quando viajava para Moscou, no meio do caminho, em Paris, numa iluminação, conseguiu entender o beco sem saída que o esperava na Rússia soviética e simplesmente fugiu, tornando-se desde então um tipo sereno e solitário de anarquista. Depois, a desilusão com os caminhos a que a técnica, a ciência e razão conduziram os homens a razão se transformando numa espécie de via mascarada para a loucura, ainda que um tipo metódico de loucura. Um mundo no qual como disse Rimbaud, "a verdadeira vida está ausente". É assim que também Sabato o sente nessas horas finais.Já na abertura do livro, Ernesto Sabato recorda que, durante muito tempo, resistiu aos apelos daqueles que lhe pediam que escrevesse um livro de memórias. "Os jovens estão desesperançados, ansiosos, e acreditam em você", os amigos argumentavam. Ao que ele ainda retruca: "Pergunto-me se mereço essa confiança, tenho graves defeitos que eles não conhecem, trato de expressá-los da maneira mais delicada, para não feri-los, a eles que necessitam ter fé em algumas pessoas". Mas é justamente o modo como Sabato se inclina diante da própria imperfeição que torna seu livro fascinante. As lições de um homem que, de tanto espanto, já não tem o que dizer - e, ainda assim, diz.Janelões e túneis - Na primeira parte, Primeiros Tempos e Grandes Decisões Sabato se debruça sobre sua infância, a juventude e o mundo em que as viveu. "À medida em que nos aproximamos da morte, também nos inclinamos em direção à terra", ele diz. Por terra entende, sobretudo, o território remoto de sua infância, nem um pouco paradisíaca. Foi um menino massacrado pelas decisões inapeláveis do pai. Uma criança triste, pois os pais o batizaram Ernesto em homenagem a outro Ernesto, o irmão do mesmo nome, que morreu pouco antes de seu nascimento. "Aquele nome, aquela tumba, sempre tiveram para mim algo de noturno, e talvez tenham sido a causa de minha existência tão difícil", ele escreve. Tinha pesadelos, era sonâmbulo e, por isso, foi superprotegido. Na adolescência, começou a se interessar pelas idéias anarquistas, que depois o levaram, por algum tempo, ao comunismo. Desde cedo, foi um leitor dedicado, ainda que sem método. Julio Verne, Goethe, Ibsen, Gogol, Dostoievski, Cervantes estão entre os primeiros autores que descobriu. Por fim, dedicou-se à Física, tornando-se doutor. Depois de muitos conflitos, já à entrada da maturidade, descobriu que seu caminho estava na arte, que tem a impureza como destino, e não na ciência, que não desiste da perfeição. Identificou-se desde logo com artistas como Van Gogh e Artaud, homens de espírito limítrofe, que "uniram sua atitude combativa à mais grave preocupação espiritual".Na segunda parte, Talvez Seja o Fim, Sabato reflete não mais sobre si, mas sobre o mundo que se prepara para abandonar e que, apesar de todo o progresso da ciência e os avanços da razão, ele encontra à beira do colapso. Cada geração se vê destinada a refazer o mundo, ele reflete. A tarefa de sua geração, contudo, foi muito mais cruel: sem muita esperança a cultivar, restou-lhe, ao contrário, esforçar-se para que o mundo não se desfaça. Tudo parece já estar em Homens e Engrenagens, livro visionário sobre a condição humana, que ele publicou em 1951. Meio século depois, o que parecia escandaloso e exagerado apenas se confirmou, agora reflete. Sabato faz então seu balanço pessoal da decadência do homem. É um balanço amargo, que já não pode se consolar com nenhum tipo de ilusão.Na parte final, A Dor Rompe o Tempo, escrita depois da perda de seu filho, Jorge, Sabato parece completamente desamparado. E se espelha nos versos de Hugo Mujica: "No fundo não há raízes, há o que se arrancou". É com o vazio, esse grande fluido anestesiante que borra todas as imagens e rouba os contrastes do mundo, é com esse sentimento de aproximação do Nada que ele escreve agora. Recorda a recente viagem de despedida à Albânia, onde foi receber o prêmio Ismail Kadaré, e o desmaio sem causa que o derrubou na volta, durante uma conexão no aeroporto de Viena, ele também já sem raízes, deixadas para trás, e sem a possibilidade de se manter de pé. E é assim que descobre que, embora continue vivo, o tempo para ele também parou. Para se consolar, recorda as palavras de Agostinho, que dizia que também na eternidade nada se passa. Talvez já seja a eternidade o que vê.Inquieto, Sabato recorda uma reflexão (que é também uma blasfêmia) de Simone Weil. Para ela, o sofrimento é a prova da superioridade do homem sobre deus - sendo que a encarnação de Cristo teria sido necessária para que essa superioridade não resultasse escandalosa. No meio de sua dor, Ernesto Sabato parece inclinado a aceitar esse ultraje ao absoluto, mas admite que ele acaba sempre por confundi-lo; e, para retornar à lucidez precisa ler As Confissões, de Agostinho, ou simplesmente rememorar, como quem recorda uma visão inesquecível, a escultura de Maria Madalena, de Donatello. Ampara-se ainda na frase de Oscar Wilde: "Onde há dor, há um sonho sagrado". Perspectivas que se mesclam, que se contradizem, teia de idéias sobre as quais, enfim, Sabato, já fraco, se sustenta. E a partir das quais, com uma dignidade alarmante, despede-se, sem deixar ao leitor uma só chance de lamentar. Como o protagonista de ´O Túnel´, Juan Pablo Castel, Ernesto Sabato se sente condenado ao fracasso e não se envergonha de dizer isso. Escreve: "Minha vida parece ir acabando, como em O Túnel, com janelões e túneis paralelos, onde tudo é infinitamente impossível".

Agencia Estado,

16 de setembro de 2000 | 22h00

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