A DESPEDIDA DE TRISHA

A lendária dançarina, precursora do pós-moderno, encerra suas atividades

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE, ESPECIAL PARA O ESTADO, DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É ENSAÍSTA, TRADUTORA, PROFESSORA DO CURSO DE ARTES CÊNICAS DA UFSC, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h08

A dançarina, performer, coreógrafa e desenhista norte-americana Trisha Brown, uma das precursoras da dança pós-moderna, anunciou oficialmente o encerramento de suas atividades frente à sua companhia, The Trisha Brown Dance Company. A despedida culminou com aclamadas apresentações na Howard Gilman Opera House, em Nova Yor, entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro.

A lendária artista sofreu, nos últimos anos, uma série de pequenos derrames que afetaram a sua fala e a debilitaram muito. Em dezembro de 2012, aos 76 anos, ela anunciou que duas das performances que apresentaria na Howard Gilman Opera House seriam suas últimas coreografias.

Discípula de Merce Cunningham, Trisha Brown incorporou à sua arte movimentos extremamente estudados - "estruturas matemáticas complexas e construções coreográficas detalhadas", como afirma o estudioso Philip Bither -, sem abrir mão, porém, do acaso e das improvisações. Mesclou espaços horizontais e verticais, e fez uso de elementos fílmicos e plásticos em suas apresentações. Alguns trabalhos importantes de Trisha Brown contaram com a colaboração de Robert Rauschenberg, Laurie Anderson e Mikhail Baryshnikov, entre outros.

Trisha nunca permitiu que modelos do teatro tradicional restringissem sua criatividade. Foi uma das pioneiras do site especific, criando performances de acordo com o espaço escolhido, como Man Walking Down the Side of the Building (Homen descendo o lado do edifício), de 1970, em que um performer caminhou suspenso por cordas na parede lateral de um prédio de sete andares no SoHo.

A artista nunca escondeu os equipamentos que permitiam a seus dançarinos desafiar a gravidade e criar movimentos aéreos ou, ainda, estender as possibilidades de seus corpos. Esse procedimento experimental exigiu o uso de cabos, trampolins etc., e foi depois explorado por outras companhias de danças ao redor do mundo, entre elas, a da brasileira Deborah Colker.

Acima de tudo, Brown descartou da sua dança elementos que considerava "artificiais". Assim, o figurino clássico foi substituído por roupas do dia a dia, como pijamas, e os elementos cênicos tradicionais deram lugar à exploração arquitetônica do espaço e ao uso de objetos comuns, como ventiladores. Esses aparelhos, além de ajudarem a colocar em movimento os famosos pijamas, também contribuíram para compor a trilha sonora do espetáculo. Foi o que se viu na temporada de despedida da coreógrafa. Para ela, no entanto, movimento e música são dois sistemas independentes e não necessariamente interligados.

Natural de Aberdeen, Washington, Trisha Brown estudou na Califórnia e se mudou para Nova York em 1961, onde ajudou a criar o grupo Judson Dance Theater, que abandonou a música nas suas apresentações, preferindo à trilha sonora convencional o silêncio, o som eletrônico e os ruídos da natureza.

A distribuidora Magnus Opus lançou no Brasil, em 2010, dois ótimos DVDs com algumas apresentações famosas de Trisha Brown e seu grupo, sob o título Early Works 1966-1979, volumes I e II. O primeiro traz, entre outras coreografias, a célebre Homemade (Feito em casa), de 1966.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.