Monica Almeida/The New York Times
Monica Almeida/The New York Times

A despedida de Larry, o rei do talk show

O mais popular entrevistador da TV encerra a carreira após 25 anos no ar

Bill Carter e Brian Stelter, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

Os famosos gostavam do bate-papo com Larry King, muitos deles por uma razão particular: seu programa era onde se podia conversar sem pressa e sem pauta específica. "Considero Larry uma pessoa absolutamente única", disse Ross Perot, um dos políticos entrevistados por King durante os 25 anos que ele passou na CNN. "Ao contrário dos outros âncoras, que interrompem o convidado quando ele não diz o que querem que ele diga, King deixa o entrevistado terminar o que está dizendo."

Depois de quase 50 mil entrevistas - somando a carreira no rádio e na TV -, King apresenta hoje seu último programa das 21 horas na CNN, e talvez leve consigo sua marca típica de entrevista de uma hora de conversa na TV a cabo. Não se sabe ainda como seu substituto, Piers Morgan, conduzirá a atração, mas é provável que haja mudanças em relação ao formato de King.

Embora afirme sair sem arrependimentos, King apontou como a "parte mais triste" ao deixar a arena das entrevistas da noite é o fato de os programas que bateram a CNN e King nas pesquisas serem conduzidos por âncoras que defendem um ponto de vista político. "Se olhar a mídia agora", observou King em entrevista por telefone, "todos os âncoras dos outros programas entrevistam a si mesmos. Os convidados servem apenas de escada para os âncoras das redes. Para mim, o convidado sempre foi o mais importante". Por causa de sua saída,muitos entrevistados foram convocados para sentar pela última vez à sua frente no decorrer desta semana: Naomi e Wynonna Judd, Barbra Streisand. E no programa de encerramento, hoje, vários dos antigos favoritos.

E enquanto segue a contagem regressiva até o último dos seus quase 7 mil programas para a rede, esses convidados e outras personalidades famosas querem falar sobre King e de quanto apreciam seu jeito de entrevistar, estilo que o comediante Bill Maher resumiu assim: "Larry foi o último minimalista: Al Gore; comece a falar!" Alguns críticos traduziram o enfoque minimalista como o equivalente a um pingue-pongue. "Não sei o que tem a ver", explicou King. "O que sei é que não tenho pauta. Faço perguntas curtas e fico ouvindo a resposta". Greta Van Susterem, âncora do News Channel da Fox que ficou famosa como comentarista de assuntos jurídicos na CNN durante o processo de O.J. Simpson, define esses críticos como ingênuos: "King faz com que seus convidados se sintam confortáveis e dispostos a falar, e é o que eles fazem."

King entrevistou Al Gore como convidado do debate com Henry Ross Perot, em 1993, sobre o Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta). O debate entre ambos foi um momento de definição do programa. Deu à CNN a maior audiência para um programa normal, cerca de 20 milhões de telespectadores. Na época, King era ainda associado a Perot, que o surpreendera, assim como grande parte da nação, declarando no programa sua intenção de se candidatar à Presidência, em 1992. "Eu o achei um personagem fascinante", recorda King. "No debate, Gore apareceu com um exército de funcionários da Casa Branca. Perot levou um amigo de Dallas. Perot não levou Gore a sério. Gore o engoliu e ganhou o debate."

Os dois faziam parte de uma longa lista de personalidades políticas, inclusive de todos os presidentes desde Richard Nixon. (Quando King perguntou a Nixon se ele já havia estado no interior do edifício Watergate, o ex-presidente disse com um riso triste: "Eu, propriamente, não.") Um presidente, George H.W. Bush, admitiu sentir-se "muito próximo de Larry". Bush afirmou em um e-mail: "Tenho o maior respeito por Larry King", definindo-o como "entrevistador completo e profissional minucioso".

Outro ex-presidente sentiu-se na obrigação de manifestar sua admiração. No dia 1.º de dezembro, Vladimir Putin declarou a King, ao comparecer ao programa, que nos EUA "há muitas pessoas talentosas e interessantes, mas ainda há apenas um King".

Putin. Nos últimos meses, na lista dos convidados para sua despedida King incluiu outros presidentes (Jimmy Carter), astros do show biz (George Clooney, Stevie Wonder, Jon Stewart, Jeff Bridges) e a miríade de celebridades de todo tipo: o presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã; Oksana Grigorieva (ex-Mel Gibson); Ricky Martin (declarando sua sexualidade). A variedade dos convidados no Larry King sempre impressionou e divertiu os comentaristas de fora. "Nem todos podem entrevistar Putin e depois Snooki", observou Katie Couric, âncora da CBS News.

Jeffrey Toobin, analista de assuntos jurídicos da CNN, disse que o longo processo a O.J. Simpson, transmitido durante o Larry King Live, foi de certo modo a história perfeita para King, "porque combinava temas de grande destaque e baixezas; havia importantes questões sobre justiça e raça, e as celebridades mais sórdidas de Los Angeles".

O próprio King lembrou alguns de seus convidados favoritos, como um almoço com Nelson Mandela na África do Sul e a primeira entrevista na rádio, em 1963, com Barbra Streisand, na época uma jovem cantora de Nova York pouco conhecida. O Eden Rock Hotel de Miami, onde ela estava se apresentando na época, pediu que a entrevista lhe oferecesse uma oportunidade para aparecer, relata King. "No fim, ela disse: "O senhor não me conhece agora, mas um dia vai me conhecer."" Depois, houve Marlon Brando, em 1993, que acabou com o ator estampando um beijo de agradecimento na boca do âncora. King lembra que Brando pedira que fossem almoçar juntos como introdução e foi buscar King a bordo de um Chevrolet.

Donald Trump, o magnata do setor imobiliário e dos reality shows da TV, explica que Larry é capaz de arrancar mais informações de uma pessoa do que qualquer outro - "e você nem se dá conta disso". O fato de King acabar tirando informações de quase todos os notáveis (os dois que mais lamenta não ter encontrado em seu típico conceito de entrevista das pessoas mais disparatadas, Fidel Castro e Jack Nicholson), ele o atribuiu à sua "curiosidade insana" e a um talento "pelo qual não me atribuo nenhum crédito: as pessoas respondem às minhas perguntas". E confessou: "Sentirei saudades." TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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