A deslumbrante embaixatriz da Maison Chanel

Um encontro com Anna Mouglalis, modelo e atriz que interpreta o inédito Coco Chanel & Igor Stravinski

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

PARIS - Ela nasceu em Nantes, como o lendário Jacques Demy, há 31 anos (fará 32 em 26 de abril). Filha de pai grego e mãe francesa, Anna Mouglalis não se acha bonita. Diz que é feia. Se aquilo é ser feia, trata-se da feia mais bela do mundo. É janeiro, em Paris, um frio de rachar. No Hotel Intercontinental, junto à Opéra, realizam-se as entrevistas do Rendez-Vous du Cinéma Français. O prédio do hotel abriga o Café de la Paix. É a Paris da intelectualidade e da sofisticação. Parece coisa de cinema. O repórter entra na sala. Anna está de costas, junto à janela. Ela se vira e...

Caminha quatro ou cinco passos, sorri, aperta a mão, senta-se. Parece irreal. Flutua, não anda. E a voz... É o que há de mais marcante em Anna Mouglalis. Existem muitos vídeos no YouTube, caso você queira confirmar o que há de caliente nessa voz um tanto grave, um pouco rouca, mas que lhe cabe perfeitamente. Anna Mouglalis é hoje indissociável da marca Chanel. Escolhida por Karl Lagerfeld para ilustrar a campanha do perfume Allure, em 2002, ela é muito mais que um rosto incorporado à marca. Virou embaixatriz da maison. De tanto vestir Chanel, vestiu a pele da própria personagem em Coco Chanel & Igor Stravinski, o longa de Jan Kounen que encerrou Cannes em 2009.

 

Tudo em Anna Mouglalis é chique. Botas, calças, jaqueta de couro, echarpe. Tudo preto. Só a blusa, finíssima, é branca. O repórter pergunta - é tudo Chanel? Ela faz com a cabeça o gesto de sim. Caro? "O preço da qualidade e do bom gosto", responde. E quanto custa isso? A assessoria termina por revelar. Só as botas e a jaqueta compõem a bagatela de mais de 10 mil. A indumentária completa, para quem quiser se vestir como Anna, nesse estilo casual chic, matinal, não sai por menos de 15 mil, R$ 40 mil. A roupa é só um complemento, ela garante. Você não é o que veste, mas o que veste pode realçar você. É uma lição de Chanel.

Cena do filme Coco Chanel & Igor Stravinsky, com Mads Mikkelsen e Anna Mouglalis

 

Modelo e atriz, Anna já tinha filmes importantes no currículo antes de fazer o de Jan Kounen. Filmou com Claude Chabrol (Merci pour le Chocolat, com Isabelle Huppert), Michele Placido (Romanzo Criminale) e chegou a provocar certa comoção quando Les Amants du Flore, de Ilan Duran Cohen, estreou na TV francesa. Um crítico escreveu que algo místico se passou na telinha quando Anna e Lorant Deutsch reviveram a ligação dos ícones existencialistas Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Uma atriz que consegue ser ao mesmo tempo Simone de Beauvoir e Chanel? "Ambas, cada uma de um jeito, ajudaram a liberar as mulheres." Simone refletiu sobre a identidade feminina, deu voz ao seu desejo. Chanel criou a moda prática para a mulher independente do século 20. Fez uma revolução ao encurtar os cabelos e as saias.

Como embaixatriz da marca, Anna é obrigada a saber tudo sobre Mademoiselle. Pode ficar horas falando da mulher que considerava a moda efêmera ("Ela precisa morrer para que os negócios floresçam"), não acreditava em amizades (a vida toda teve só uma amiga, Misia Sert), mas impulsionou muita gente ao seu redor. Além de acolher Igor Stravinski em seu castelo, após a tempestade que ele provocou com A Sagração da Primavera - é a história do filme de Kounen -, foi Coco quem apresentou Luchino Visconti a Jean Renoir e assim surgiu o cineasta. O aspecto mais controvertido dessa vida foi o romance com um aristocrata nazista, que a levou a alguns anos de autoexílio, após a guerra. Duas frases, segundo Anna Mouglalis, resumem a mulher. "Ser elegante não é trocar de roupa a toda hora. Eu tenho só dois tailleurs e ando sempre bem-vestida." Anna só não reza na cartilha de Chanel no tocante aos sentimentos. "Ela sacrificou o amor à carreira. Eu não troco nada pelo amor de minha filha e meu marido."

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