A desconstrução de Clarice Lispector

ENTREVISTA: Thelma Guedes - Escritora e autora de novelas

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2010 | 00h00

Tudo aconteceu de uma vez para a autora Thelma Guedes no ano passado. Para preencher o marasmo da espera pela aprovação ou não dos projetos de novela que submetera à Globo, em parceria com a autora Duca Rachid, ela resolveu se inscrever em uma das bolsas do Programa de Ação Cultural (Proac), oferecidas pela Secretaria de Estado da Cultura. A ideia era desenvolver um livro de contos a partir das influências de seus escritores preferidos.

Eis que livro e novela - no caso Cama de Gato, que ocupa o horário das seis - foram aprovados, e a autora passou os últimos meses em jornada dupla. "Trabalhava na novela o dia todo e, quando chegava em casa, à noite, reunia forças para mergulhar nos contos", conta a autora, que lança hoje, em noite de autógrafos e aula aberta na Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, O Outro Escritor. Os atores Paola Oliveira, Ailton Graça, Daniel Boaventura e Wagner Molina participam do evento, lendo trechos dos contos, a partir das 19h30.

Autora da Globo desde 1997, Thelma tem carreira acadêmica paralela, formada em Literatura Brasileira pela USP. É o quarto livro que ela publica - antes, lançou Cidadela Ardente (1997), também de contos; Pagu: Literatura e Revolução (2002), de ensaios; e Atrás do Osso (2007), de poesias.

Nesta entrevista ao Estado, Thelma fala do processo de criação dos 16 contos que compõem o livro e sobre a ousadia de escrever a partir do trabalho de autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Raduan Nassar, entre outros.

Como surgiu a ideia do livro e por que resolveu escrevê-lo em paralelo à novela Cama de Gato, que já é um trabalho para preencher a vida durante meses?

O começo dessa história é antiga. Surgiu quando participei de uma oficina de literatura do João Silvério Trevisan. Um dos exercícios era um diálogo com o seu autor preferido. Acabou se tornando o esboço do conto O Ponto, em que homenageio a Clarice Lispector. Escrevi esse conto, e fiquei com essa ideia. E eu e a Duca tínhamos mandado uma série de sinopses de novelas para a Globo. Enquanto esperava, me inscrevi na bolsa de incentivo do Proac e passei. Então, tinha prazo para escrever e lançar o livro, não tinha como fugir. Foi uma delícia escrever, mas quase pirei. O livro e a novela, então, nasceram juntos.

O Ponto foi inspirado por Clarice Lispector. Como escolheu os autores que deram origem aos outros contos?

Primeiro, fui olhar meus contos anteriores, e fiquei pensando nas minhas influências. Foi de dentro para fora mesmo, a partir das minhas influências naturais. Tem um conto interessante, por exemplo, em que homenageio o Philip K. Dick, chamado Scroll Lock. Sabe para quê serve a tecla scroll lock no teclado do computador?

Não faço ideia...

Então... Ninguém sabe, é uma tecla que não serve para nada. Eu falo no conto sobre tudo o que não serve para nada na geração futura. Ao escrever esse conto, fui vendo que, de repente, ficou meio Kafka. Um outro conto, sobre a viagem de Raduan Nassar em Lavoura Arcaica, no fim, achei que teve algo de vampiresco, meio Anne Rice. Os autores que eu gosto, então, acabaram atravessando vários contos.

Acha que é preciso uma dose extra de coragem para usar e admitir essas influências deliberadamente e até mesmo para transformar a Clarice Lispector em uma galinha vaidosa, como você fez em O Ponto?

Para ser escritor, precisa ser corajoso, né? Esse livro surgiu de uma angústia minha, de eu precisar exorcizar meus autores preferidos para buscar meu próprio estilo. É meio como desconstruir. É como desmontar uma máquina para saber como montá-la de novo. Eu tinha uma mania de sacralizar os autores. Dessacralizei, e talvez tenha cometido uma heresia, mas fico feliz. Essa coisa de esculhambar um pouco, literariamente, é uma maneira de dessacralizar. Acho que o escritor precisa ser ousado, senão não vai dar um passo, ficar no pequeno. Para mim foi muito bom, terapêutico.

Você consegue identificar essas referências literárias também no seu trabalho como autora de novela?

Algumas coincidem, mas acho que são coisas diferentes. O Gustavo (Marcos Palmeira em Cama de Gato) tem um pouco de Dom Casmurro, por exemplo. Mas acho que na novela, os grandes clássicos aparecem de maneira mais arquetípica. As referências são mais sutis. Mas a literatura, de qualquer forma, é a base do trabalho de qualquer autor, em qualquer área.

TRECHO

Não sei quanto tempo permaneci desmaiada, mas quando voltei do desmaio, Clarice já era uma galinha gorda, saudável e acostumada à minha casa. Usava saia plissada, unhas pintadas e, diante de um espelho, se maquiava, contornando os olhinhos amendoados...

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