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À deriva

Estava invisível no meio de pessoas em movimento pausado, obstinado e concreto

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2016 | 02h00

Passei o dia 18 de outubro enlatado num avião que deveria me levar a Congonhas de onde seguiria com destino a Joinville a fim de cumprir um compromisso de trabalho.

Como moro em Niterói e não sei mais como vou chegar ao Rio, acordei pelas 7 e, no aeroporto Santos Dumont, consegui antecipar o meu voo, o qual o mau tempo inesperadamente atrasou, deflagrando uma cadeia de frustrações que a maravilhosa rapidez dos deslocamentos modernos de quando em vez promove.

À deriva, vivi as consequências inesperadas das ações sociais, como dizia Max Weber; ou da vida, como dizia vovó Emerentina. Uma boa intenção deflagra um mal-entendido; um presente, um veneno; um beijo, uma gravidez; um governo eleito para cuidar dos pobres e a enriquecer seus donos vê o sol nascer quadrado.

Fiquei cerca de 12 horas naquilo que um colega francês, Marc Augé, chamou, num livro de 1995, de “não lugar”.

Os não lugares (ou antilugares) são, paradoxalmente, espaços de circulação. Um outro colega, Victor Turner, chamava tais espaços de “liminares”, porque seriam marcados pela ambiguidade e induziam a um intenso individualismo, o qual detonava formas contraditórias de solidão em meio a uma multidão.

Foi com esse sentimento de estar simultaneamente dentro e fora que virei uma alma penada. Estava invisível no meio de pessoas em movimento pausado, obstinado e concreto. Até quem esperava, estava de passagem.

Sem saber se ia ou ficava – em plena deriva –, eu fazia água num oceano de ansiosos. E ali vivi uma série de excessos não programados pelo meu bem direcionado livre-arbítrio.

Estive inicialmente prisioneiro na barriga bíblica de um avião lotado por pelo menos hora e meia. Ali, ao lado de centenas de passageiros, não podia me mover. A imobilidade plena é a marca dos castigos e se faz nas sentenças destinadas a suprimir a liberdade de “ir e vir”. A cara e rotineira liberdade de movimentação, que distingue esses “antiespaços” como os aeroportos.

Uma outra vivência da deriva foi bem mais intensa, justo porque ela me obrigava a conviver com a minha impotência de fazer alguma coisa por mim mesmo e pelo meu compromisso, pois a cada minuto eu perdia a conexão (e com ela a esperança) de chegar ao meu destino. Uma falha leva a outra e não há como aplacar a irritação de passar do papel de passageiro ao arrepiante papel de perdedor de voos. Claro que não estava só. E todos os que compartilhavam a mesma desventura sentiam-se igualmente destituídos de alguma coisa preciosa. Como um roteiro tão bem ordenado se desmanchava dentro dele mesmo e no decorrer da viagem? Como o rápido era trocado pelo lento?

Estar à deriva é perder o rumo. Esse rumo que a modernidade nos obriga e impinge.

Cheguei a Congonhas e fui a um balcão onde me associei a um aglomerado de gente que era a mais viva negação das viagens aéreas. Pois ali havia tudo menos calma, certeza técnica, velocidade e rumo.

“Deus meu! – disse meu lado à deriva para um outro ainda mais perdido – como seria bom possuir um jatinho.” Entre gente furiosa e surtada era mais um mendicante a pedir orientação a duas belas mocinhas uniformizadas, parecidas com minhas netas.

A frustração, porém, me acalmou. E quando consegui um outro voo que levaria a Joinville muito mais tarde, comecei a enfrentar um outro problema: o de assumir o papel de residente temporário de um local onde ninguém deve esperar. Pois aeroportos, rodoviárias, hospitais e motéis não comportam moradores. Entre um sorvete e um uísque, meditei: pra que tanta pressa se a espera é um fato e, no fundo, ninguém vai mesmo a lugar nenhum, como dizia Raul Seixas?

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