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A decisão de ler

Aumentou o apreço pelo discurso direto, pela imagem e pela velocidade narrativa

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2017 | 02h00

Os jovens passam o dia lendo. A frase deveria animar todos, só que não. São mensagens monossilábicas em celulares, acrescidas de pequenas imagens, um jejum de ideias e abundância de onomatopeias. Desde o momento em que abrem os olhos, incluindo os períodos no banheiro, os aparelhos estão diante dos olhos. Polegares rápidos disparam sem cessar.

A maneira de registrar a escrita é gêmea xifópaga do pensamento rápido. É um espoucar de emojis e com pouca preocupação em relação à forma. Desaparece a acentuação, somem vogais, omitem-se sinais de pausas como vírgulas e chovem exclamações. Subordinadas faleceram há anos, subjuntivo está em fossilização avançada e o pretérito mais-que-perfeito, já senil quando eu era jovem, foi alvo de condução coercitiva ao cemitério. Língua é viva e sempre foi transformada pelos usuários. É necessário refletir sobre o dinamismo dela e seus novos suportes.

Vamos sair da zona ranheta. Os mais velhos proclamam em todas as épocas que os jovens não são mais o que supõem ter sido. A reclamação sobre a decadência é eterna em História. Há quarenta anos meu pai bradava que nós (meus irmãos e eu) não líamos tanto quanto a geração dele. Diante do desafio que eu enfrentava com As Minas de Prata, de José de Alencar, ele comentava que, com os mesmos 14 anos, já tinha lido as obras completas do cearense. Será que os jovens do Instagram dirão o mesmo aos netos? Algo como “no meu tempo a gente mandava ao menos um kkkk formal com a foto, vocês, jovens de 2040, nem isso fazem...”

Convivo com jovens há mais de três décadas. A inteligência não diminuiu, vou morrer afirmando. Houve uma transformação profunda. Aumentou o apreço pelo discurso direto, pela imagem e pela velocidade narrativa. Encurtou o prazo para despertar o tédio. Explodiu, de forma geométrica, a gula da novidade. As mudanças, antes visíveis ao longo de décadas, emergem em poucos meses.

Quero sair da rabugice. O mundo esta rápido. As informações fluem em pororoca contínua. Jovens estarão sempre “antenados” em seus aparelhos, especialmente se o entorno contiver adultos, professores ou gente que fala outra língua geracional. Talvez seja uma boa defesa mesmo. Quero dar outras.

Uma obra clássica contraria tudo o que eles leem no smartphone. Ela resiste ao primeiro contato, apresenta uma experiência prolongada que demanda foco por muito mais tempo do que uma “tuitada”. Orações longas, palavras desconhecidas, narrativas detalhistas, erudição e referências em cascata: muitas pedras na estrada do leitor superficial. O best-seller contemporâneo tenta seduzir, como o gif ou o meme da tela do celular. Memes são engraçados e concordam com seu mundo. Clássicos não estão “nem aí” para você. Ele dizem: “sou o Hamlet, se você não me entender, morra, eu continuarei sendo o príncipe da Dinamarca”. Exatamente porque são densos e, por vezes, até “arrogantes”, os clássicos representam uma jornada que muda o leitor-peregrino. Ler detidamente o Hamlet citado de Shakespeare ou o D. Quixote de Cervantes produz uma mudança permanente, mais do que o arranhão leve e passageiro da frase de twitter. A frase de celular, o desenho animado e o meme divertido constituem jujubas vermelhas, doces e agradáveis. Um segundo e pluft! Foi-se o sabor e a experiência. Cervantes pede que você sente, coloque o guardanapo sobre o colo, respire fundo, abra em silêncio as páginas e comece um banquete demorado, semanas no mínimo, meses provavelmente. Há entradas, pratos principais, bebidas harmonizadas, lavanda para os dedos, convidados que vão se sentando: Dulcineia, Sancho e até o relincho sagaz de Rocinante. O gênio espanhol vai servindo lentamente e, por vezes, pede que você experimente o mesmo prato e releia, até ter aprendido a degustar todas as sutilezas apresentadas.

Se o leitor-comensal se permitiu, terminará satisfeito, melhor, alimentado, transformado por dentro. Trata-se de uma experiência única. Ele poderá continuar com jujubas vermelhas, pequenos drops que necessitem da sua atenção, mas terá um outro olhar. A leitura de grandes obras torna-o melhor, apto a novas altitudes, com fôlego de alpinista profissional e que vislumbrará de forma original para o mundo onde todos repetem as mesmas ideias no banho-maria eterno do cotidiano.

Abra o volume das tragédias de Shakespeare com a peça Romeu e Julieta. Você começa trancando na fala inicial. O cara conta o fim logo no começo! Sim, porque a aventura não é saber o que ocorre no último capítulo, porém como tudo será narrado. Depois uma briga entre empregados, um gesto bizarro com o polegar. Imediatamente você já pensará: polegar entre os dentes é agressivo? Hoje seria o dedo médio em riste! Pronto, primeiro passo no campo da relatividade dos gestos e atitudes. Você acaba de sair da zona de conforto. Depois o amor de Romeu por outra mulher. Espere aí? O modelo de paixão, o jovem Montecchio estava com outra antes de Julieta? Sim! Por fim a festa, o acaso, o amor à primeira vista, os versos da paixão que envolvem amor, santos, peregrinos e catedrais. Chegamos à cena do balcão. Que namorada ainda seria seduzida pelo discurso do apaixonado de Verona? Estamos na parte inicial e o leitor já questionou gestualidade, amor, expandiu imaginação e criou a capacidade de se projetar em outras personagens. O clássico está fazendo efeito. Faltam ainda duelos, casamento secreto, venenos, um príncipe que luta pela ordem, uma cena atrapalhada com um frade e um final intenso.

Comecei com uma obra mais “fácil”. Há muitas, em variados graus. O benefício maior da leitura é interno. Há bônus secundários: em uma seleção de emprego, na conversa entre amigos, na disputa por um rapaz ou uma moça, quase todos estarão dizendo a mesma coisa. Vantagem evolutiva: o leitor de clássicos terá outro ponto de vista. E os outros? Tuitarão apenas: “não deu, kkkkk!” O mundo do futuro é o da inteligência. Bom domingo para todos nós!

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