A decadência do futuro

CRÍTICA: Filme de Len Wiseman tem agenda própria, na qual o escritor é secundário

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

17 de agosto de 2012 | 20h00

Alain Resnais sempre sonhou com a realização de um grande filme em quadrinhos. Como A Viagem de G. Mastorna, filme mítico de Federico Fellini, ele chegava a antecipar como poderia ser o seu Mandrake. Philip K. Dick não é quadrinista, mas é uma pena que Resnais nunca tenha sido sequer cogitado para dirigir uma das numerosas adaptações do escritor para o cinema. O universo ‘sonhado’ de Total Recall, que agora ganha remake com o mesmo título brasileiro, O Vingador do Futuro, seria perfeito para o seu imaginário.

Vamos logo acrescentando que o longa de Len Wiseman que estreou ontem guarda pouca ou nenhuma semelhança com o conto que lhe deu origem - ou com o filme que o holandês Paul Verhoeven fez em 1990. Na época, Arnold Schwarzenegger já havia feito o ciborgue de O Exterminador do Futuro e os distribuidores não pensaram duas vezes - se havia um vingador, e era Super-Arnold, só poderia ser do futuro. A nova versão mistura personagens - o vilão e a mulher de Colin Farrell, que faz o papel de Schwarzenegger, cabem à bela e sexy Kate Beckinsale. Mulher do diretor na vida real, ganhou um papel sob medida, um papelão (no sentido de grande, não vexatório).

A primeira coisa que o leitor atraído aos cinemas pelo conto inaugural da antologia Realidades Adaptadas - Lembramos para Você a Preço de Atacado - deve fazer é esquecer-se do que leu. Parece um conselho inusitado, considerando-se que o original trata de memórias transplantadas, se elas são reais ou não - um prato cheio para Resnais. Esqueça, leitor, porque você não vai encontrar quase nada das indagações de Philip K. Dick. Cinema é uma coisa, literatura é outra e Len Wiseman destrói toda complexidade e nuance do texto. Não o faz por burrice, mas por convicção.

Não lhe interessam as sutilezas de K. Dick nem as memórias marcianas do herói. Ele, inclusive, subverte todo o significado da narrativa, porque no original não há muita dúvida de que Colin Farrell, ao embarcar no que lhe parece um sonho - ou pesadelo -, na verdade está vivendo a realidade futurista. Ele é um agente cooptado pelas forças de Matias, que combate o poder central; sua mulher é uma agente governista, que vai caçar implacavelmente o marido de fachada, e tudo faz parte de um plano para se infiltrar nas hostes do ‘messias’ (o nome não é parecido por acaso). Há um interesse ‘romântico’ - a personagem de Jessica Biel, responsável pela conversão do herói.

O holandês Verhoeven pode também não ter sido muito fiel a Philip K. Dick. Interessava-lhe o jogo de máscaras, numa época - há apenas 22 anos - em que as novas tecnologias, aprimorando os efeitos especiais, permitiam jogar com possibilidades imensas (infinitas?) na abordagem do rosto humano - e da modificação das feições. Verhoeven sempre teve um imaginário bizarro, em termos de sexo também, e encontrou na máquina de Hollywood o instrumental para liberar suas fantasias. Para os padrões de Hollywood, ele sempre foi excessivo e, por que não dizer, transgressor. Len Wiseman recoloca Philip K. Dick nos trilhos. Ação, muita ação, perseguições frenéticas, efeitos mirabolantes, tudo para que o espectador não tenha muito tempo para pensar.

Há no conto, embora curto, toda uma abordagem sobre a relação do casal. No filme, resume-se a dois breves diálogos, um de Farrell com Kate (a falsa mulher) e outro com Jessica (sua salvadora). As indagações existenciais transparecem no encontro com Matias - alguns diálogos verdadeiramente interessantes -, mas, como narrativa de agente duplo, ou secreto, o que importa é a pauleira. Tudo o que Colin sonha, no começo, para sacudir a monotonia da sua vida, em resumo é (verdadeiro). A chave - a marca na mão do herói, do ‘salvador’, e na de sua amada.

O novo Vingador do Futuro é um grande filme? Médio, como ação. Mas há algo grande, sim, nessa história. Em Blade Runner, o Caçador de Androides, outra adaptação do escritor, Ridley Scott criou um universo futurista em que ao visual se mesclavam elementos retrô, próprios do filme noir que ele emulava, como gênero, no desenho dos personagens. Wiseman vai além de Ridley Scott na ousadias do desenho de produção - e direção de arte - de O Vingador do Futuro. Que cidade é essa? O visual de O Vingador do Futuro antecipa a decadência do futuro, radicaliza o caos urbano. Como o velho Metropolis, de Fritz Lang, ou o já citado Blade Runner, de Scott, o remake de O Vingador do Futuro vai na contramão do universo clean de Stanley Kubrick em 2001 para criar uma experiência - de cinema? De arquitetura social? Qualquer debate sobre a cidade deveria, a partir de hoje, passar por O Vingador do Futuro.

 
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