A dama em defesa de um samba puro

A dama em defesa de um samba puro

Aos 88 anos, com mais de seis décadas de carreira, Dona Ivone Lara canta em São Paulo pela essência do gênero

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Rococós e excessos, apenas na aparência, com figurino, cabelo e maquiagem vistosos, sempre elegantes. Na música, penduricalhos e floreios não passam de banalidades, pelo menos na opinião de Dona Ivone Lara. Prestes a completar 89 anos (no dia 13 de abril), a Dama do Samba se apresenta hoje e amanhã no Teatro Fecap, em São Paulo, ao lado de uma formação inusitada, com músicos bem mais jovens do que ela: o grupo Social Samba Fino e o DJ Rick Dub.

Com 63 anos de carreira, e ainda se recuperando de uma cirurgia feita em novembro, no fêmur, Dona Ivone volta a andar aos poucos, o que não a impede de lotar casas de espetáculos, como ocorreu no sábado, na Concha Acústica, em Salvador. Além disso, já são pelo menos mais 12 shows marcados.

Ao contrário de artistas experientes que travam contato com jovens como forma de renovação, a compositora apenas pede que a tradição do samba seja respeitada. "Para mim, não é aprendizado. Eles é que têm que tocar direitinho pra não me atrapalharem", diz Dona Ivone.

Nos shows, a sambista interpretará clássicos de sua carreira como Alguém me Avisou, Acreditar e Sonho Meu, além do sucesso em sua voz, Sorriso Negro, de Jorge Portela e Adilson Barbado. Ela cantará oito números com o Social Samba Fino, que também mostrará oito temas antes, sem Dona Ivone. No fim, o grupo e a sambista, acompanhados do DJ Rick Dub, tocarão a antológica Enredo do Meu Samba.

Da primeira composição de Dona Ivone, Tiê, até hoje, passaram-se 76 anos, com a essência intacta. A compositora mantém apego inabalável em relação à tradição do gênero, extremamente avessa aos modismos de hoje. "Gosto de cantar o que é meu como eu fiz, não gosto de muito enfeite. Infelizmente, essas meninas que hoje se apresentam cantando samba querem inovar, isso não dá certo", comenta a sambista carioca.

"Ela é um ícone do samba. O papel de trazer coisas novas é nosso", comenta Luiz Mel, do Social Samba Fino.

Coberta de razão, Dona Ivone não precisa dizer muito, suas composições falam por si só. Seus sambas são hinos de simplicidade e lirismo, que, justamente por isso, há tempos perfumam o imaginário de tantas gerações.

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