A dama do teatro

O renovador trabalho de Ariane Mnouchkine no Théâtre du Soleil inspira livro da Bienal

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Na cena internacional, são poucos os membros que hoje compõem a realeza teatral, como o inglês Peter Brook e o italiano Luca Ronconi. Entre as mulheres, depois da morte da alemã Pina Bausch no ano passado, a coroa parece exclusiva da francesa Ariane Mnouchkine, fundadora e principal incentivadora do Théâtre du Soleil, uma das mais importantes companhias do teatro contemporâneo. E também uma das mais sólidas: fundada em 1964, mantém firmes seus alicerces, baseados na inquietação estética e na invenção de um verbo teatral que não seja totalmente emprestado da realidade.

Atenta observadora das práticas cênicas do Soleil - revolucionárias no início, fascinantes hoje em dia -, a pesquisadora canadense Josette Féral acompanhou diversos encontros com Ariane, momentos em que pôde interrogá-la sobre suas profundas convicções teatrais. O resultado é Encontros com Ariane Mnouchkine: Erguendo um Monumento ao Efêmero, que a Editora Senac São Paulo e as Edições Sesc São Paulo lançam na quarta-feira, na 21ª Bienal Internacional do Livro, onde acontece um debate mediado por Alexandre Mate e a participação da diretora Cristiane Paoli-Quito.

Trata-se de um delicado raio X. Instalado desde 1970 em um dos galpões da Cartoucherie, antigo depósito de munições situado no Bosque de Vincennes, no subúrbio de Paris, o grupo nasceu em uma década marcada pela efervescência política, o que alterou profundamente seu DNA. A partir das manifestações de maio de 1968, Ariane e seus atores adotam um novo modelo de contrato social que resulta em uma prática de vida comunitária. Ou seja, os artistas dedicam seu tempo aos exercícios e improvisações, dividindo também obrigações caseiras. Mais: todos passam a ganhar exatamente o mesmo salário.

Do ponto de vista do conceito, o Théâtre du Soleil inspira-se nos conceitos de Bertolt Brecht, baseados na festa e no prazer unidos à reflexão crítica. Adota também a concepção de Antonin Artaud para quem o poder de criação do teatro baseia-se principalmente no trabalho do encenador e não na palavra do texto. Ou seja, joga o foco sobre o ator. Ariane junta esses conceitos, mas confere seu tempero pessoal ao não abandonar a dramaturgia. "Ela não se deixou cair na armadilha: o trabalho do ator é importante, a construção da cena é importante, mas o texto também é importante", observa o professor e autor Paulo Vieira, na apresentação do livro.

Com isso, o Soleil constrói uma carreira inspirada não apenas nas grandes tragédias coletivas, mas também nos pequenos e profundos dramas cotidianos. Ou seja, dialoga com seu tempo histórico.

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