A dama das letras

Mentora da Festa Literária de Paraty, Liz Calder lembra da criação da Flip, que começa na quarta

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

Os olhos azuis da inglesa Liz Calder faíscam mais intensamente em uma determinada época do ano, aquela em que, sob sua bênção, um punhado de grandes escritores se reúne com leitores ávidos por sua escrita, em uma charmosa cidade litorânea fluminense. É o que vai acontecer nesta semana quando, na quarta-feira, começar a oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, o mais importante encontro literário brasileiro. Um evento tão poderoso que seu sucesso inspirou dezenas de outras feiras de literatura que agora povoam o calendário do País.

"A Flip tornou-se uma instituição", diverte-se. "Não esperávamos que, em tão pouco tempo, virasse uma referência também no exterior." De fato, desde a primeira edição, em 2003, 240 escritores já passaram por Paraty, atraindo um público total de aproximadamente 100 mil fãs. Uma relação carinhosa, capaz de produzir flagrantes maravilhosos como Chico Buarque de Holanda batendo bola debaixo de chuva, em 2004, ou o sisudo sul-africano J. M. Coetzee exibindo um guloso sorriso ao comprar pé de moleque em uma carroça de doce na rua, em 2007.

Isso para não falar do teor das palestras, irregulares como se espera de um evento tão plural, mas geralmente carregadas de alta dose de inteligência e sarcasmo ? também em 2004, o inglês Ian McEwan surpreendeu a plateia ao detalhar as pesquisas realizadas para a escrita de Sábado, que envolveram uma imersão no universo dos neurocirurgiões e suas "luvas com restos de mentes", além de médicos que vistoriavam a cabeça dos outros ao som da Nona de Beethoven.

Vitórias pessoais de Liz, uma mulher esbelta e elegante de 72 anos, que fala com sotaque europeu e possui o típico humor inglês, ácido, mas que compete e é derrotado por uma profunda bondade. Ela lembra que a Flip surgiu para suprir uma necessidade. "Há 20 anos, quando eu já trabalhava como publisher (na editora Bloomsbury), não havia feiras literárias no Reino Unido, ainda que existisse um público ávido por esses encontros", conta Liz. "Dez anos depois, a ilha já era palco de diversos eventos."

O sucesso a incentivou a testar a ideia no Brasil, mas o projeto demorou para vingar ? o embrião da Flip surgiu em 1992, quando Liz conheceu o arquiteto paulistano Mauro Munhoz durante a caminhada de uma hora por uma trilha que os levou à casa do navegador Amyr Klinke, cujo livro ela desejava publicar em inglês. Juntos, rascunharam uma ideia, mas a festa só aconteceu mesmo 11 anos depois.

A longa gestação serviu para acertar os ponteiros. "Nosso modelo é o festival de Hay-on-Wye, no País de Gales, mas decidimos evitar o que considero o principal problema dos encontros literários na comunidade britânica: três ou quatro palestras simultâneas. Em Paraty, isso não acontece e ninguém corre o risco de perder alguma boa conversa." E, neste ano, o cardápio oferece 19 mesas.

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