A curiosidade matinal que nos acorda

NOVA JERSEY - De todos os ismos que surgiram e prosperaram nos últimos cem anos - comunismo, fascismo, socialismo, capitalismo, etc. - guardadas as diferenças profundas entre eles, ainda existe um que, para mim, realmente dignifica a existência humana quando ocorre em sua melhor forma. Eu o chamo de "newspaperism", ou talvez, "jornalistismo", por estranho que possa soar. Seus praticantes podem não o saber, mas o "newspaperism" é uma ideologia tão clara e um modo de vida tão coerente como quaisquer outros.

Lee Siegel,

30 de setembro de 2012 | 01h25

 

Comecemos pelo componente essencial, fundamental, desse ismo: o Homo jornalistens. Embora caracterizado em filmes antigos sobre o ofício jornalístico, como Nada É Sagrado, A Primeira Página e Cidadão Kane, a caricatura contém grandes rasgos de verdade. O Homo jornalistens é rabugento, cético, monomaníaco, capaz de suportar qualquer dose de humilhação na busca de uma história, absolutamente amoral na perseguição de um "furo", de uma façanha de exposição que, na melhor hipótese, rasga a fachada do poder abusivo ou revela as operações obscuras da incompetência mal-intencionada. Como em todo quadrante da vida, o meio jornalístico pode se render ao comercialismo, à prepotência, à fome de poder. Mas, no que tem de melhor, o jornalista (ou a jornalista - fica subentendido) é um ser que se move por linhas axiais de decência, racionalidade e bom senso.

 

Baudelaire escreveu certa vez que gênio é a fusão de inocência infantil com a vontade racional do adulto. Nesse sentido, o jornalista é um dos poucos exemplos, o único talvez, de gênio não artístico. Ele trata a vida não exatamente como uma página em branco, mas como uma página cinzenta - sua inocência consiste do fato de que se tornou desiludido demais para se decepcionar. Por isso, como criança, aceita a realidade tal como ela é.

 

Assim como uma pessoa, à medida que envelhece, anseia pelo paraíso da infância, o jornalista deseja encontrar um equilíbrio moral em cada situação. Ele tem uma desconfiança instintiva de pessoas com demasiada influência, de organizações que se tornaram demasiado grandes, de situações que parecem demasiado certinhas e harmoniosas. Em um dos grandes filmes mexicanos de Luis Buñuel, El, ele nos mostra a casa perfeitamente mobiliada de um arquiteto, para depois descobrirmos, quando uma criada sai à procura de alguma coisa, um completo caos dentro de um armário. O arquiteto se revela um monstro ciumento que quase mata a própria mulher. O jornalista sai atrás do armário caótico na casa perfeita, na esperança de expor um desequilíbrio patológico de poder antes de ele se tornar criminoso.

 

Como qualquer budista, o jornalista desconfia do ego humano. Ele vê como uma afirmação egoísta desestabiliza o equilíbrio de relações humanas. Ele não tem ideias preconcebidas. Ele não é um comunista ou um fascista, um socialista ou um capitalista. Ele pode ser religioso ou não, liberal ou conservador. Ele parte da premissa de que alguma coisa está errada e alguma coisa precisa ser endireitada. Começando com uma perspectiva de senso comum e decência, chega, por uma sucessão de fatos, após uma jornada pelas evidências, a uma posição de senso comum de decência. Pode ser que o indivíduo poderoso tenha prejudicado o indivíduo sem poder. Ou pode ser que, numa noite escura, o indivíduo sem poder, sombriamente convencido por seu sofrimento, tenha tirado a vida do poderoso que estava caminhando ao encontro de sua família. O constante no panorama do jornalista é o ódio aos agressores.

 

Hegel disse certa vez que a leitura do jornal era a oração diária do homem moderno, com o que quis dizer que o exercício matinal de ler o jornal tinha um quê de espiritual. Se a notícia for benfeita, ela oferece ao leitor quadros vívidos de como outras pessoas vivem. Se ele a ler como um exercício espiritual, tentará se imaginar na vida de cada pessoa sobre a qual lê. Ele será o assassino e a vítima, o médico e o paciente, o ganhador do Prêmio Nobel, os recém-casados - noivo e noiva - e o sem-teto atropelado por um motorista de ônibus distraído pela enfermidade de sua mulher. Se a democracia depende de fluidez, da possibilidade de mudanças radicais, de uma simpatia universal despojada de preconceitos institucionais, a janela vicária do jornal nas vidas de outras pessoas é o instrumento essencial da democracia. O jornalista é para a democracia moderna o que o escultor e o pintor foram para a república florentina.

 

Lê-se um bocado hoje em dia sobre a ameaça que a era digital representa para os jornais. A ameaça é real, mas são sobretudo pessoas com menos de 30 anos que preferem receber suas notícias de fontes da internet, e não de jornais, e a verdade é que - ao menos nos Estados Unidos - pessoas com menos de 30 nunca leram muito de nada. O hábito de ler um jornal vem com idade, estabilidade e rotina. Mas o argumento mais auspicioso para a preservação dos jornais provém da dignidade mundana do próprio jornalismo. Outros ismos querem que você, em última instância, lhes dê a sua vida. Tudo que os jornais pedem é que você acorde toda manhã curioso para saber o que houve. Somente a verdade é bastante substancial e bastante divertida para satisfazer essa curiosidade. E somente um jornal, no que tem de melhor, pode lhe dar uma imagem viva da verdade.

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