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A cultura em tempos de coronavírus

Vamos testemunhar uma explosão de talentos desconhecidos ao fim dos confinamentos? Não esperemos por isso

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 03h00

A França ama a cultura. Ainda mais durante essa temporada de coronavírus e confinamentos. Não se passa uma semana sem que um ministro, um líder de partido, um poeta desconhecido ou um romancista decadente nos lembre ou nos explique que este isolamento é muito irritante, mas que, felizmente, temos um tesouro de Ali Baba ao nosso alcance: livros para ler, músicas de Berlioz e Beethoven para ouvir, filmes para ver em casa, pinturas para admirar em catálogos – ou seja, o suficiente para tornar breve o interminável tempo do confinamento.

Macron, grande admirador da cultura (diferentemente de seus dois antecessores, Chirac e Sarkozy, verdadeiras nulidades culturais), muitas vezes nos relembrou esse fato óbvio: em tempos de confinamento, a cultura é indispensável. Por enquanto, toda a cultura está trancada, há um ou dois meses. Até as livrarias fecharam as portas, deixando a já trêmula indústria dos livros indefesa diante de Moloch. Cinemas, teatros, museus, casas de ópera: tudo fechado. E, agora, o primeiro-ministro anuncia que, se não respeitarmos as medidas para impedir que matemos nossos vizinhos ou a nós mesmos de covid-19, teremos de tomar mais uma dose de semanas de solidão.

O cinema está se preparando para retomar a produção. A indústria precisa de longos preparativos e não poderá contar com as grandes salas de exibição antes de julho. Precisaremos de filmes para levar as pessoas de volta aos cinemas. Esperamos três superproduções de Hollywood para julho e agosto. As salas pequenas, que costumam exibir os melhores filmes (antigos ou de arte), são mais flexíveis. Elas planejam reabrir em maio, mas os gigantes têm uma vantagem. As salas grandes são novas ou foram reformadas recentemente (antes do coronavírus). São salas imensas, cujos assentos foram afastados uns dos outros, de modo que será facilmente respeitada a distância de um metro e meio entre os espectadores.

O mesmo valerá para os museus. Temos dois monstros: o Louvre e o Museu de Orsay, cujas filas, em tempos normais, podem se estender por quilômetros. A desvantagem é que eles raptam todos os visitantes e não resta nada para os museus do interior. É uma pena, porque esses pequenos museus são elegantes e exibem pintores locais: em Aix en Provence, há um Cézanne muito bonito. Passei uma tarde admirando o Cézanne sem ver “uma alma viva”. Esses museus do interior, rapidamente colocados em bom estado de funcionamento, serão abertos antes das grandes máquinas da capital. Por isso, paradoxalmente, o vírus dará mais uns merecidos dias de folga esses salões.

Este quadro recorda o que aconteceu em 1945, depois de cinco anos de guerra. É verdade que em 1945 houve uma explosão criativa fascinante. A literatura americana, pouco conhecida antes de 1939, tomou as livrarias. A música moderna vibrava em todos os fonógrafos. O ressurgimento da paz nos permitiu descobrir jovens artistas que haviam trabalhado silenciosamente sob a ocupação e que dariam novos rumos ao surrealismo, que envelheceu de repente. Vamos testemunhar uma explosão de talentos desconhecidos ao fim dos confinamentos? Não esperemos por isso. As duas experiências são incomparáveis. Mas não há dúvida de que a estranha experiência pela qual a população está passando deixará traços importantes, dos quais só conseguimos vislumbrar algumas sombras hoje em dia. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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