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'A cultura e a civilização...'

Enquanto houver liberdade para que o artista possa mostrar o trabalho para o público, enquanto o microfone estiver à disposição, a Virada Cultural deve ser ocupada e o palco deve ser lugar de livre expressão

Roberta Martinelli, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2017 | 03h00

No fim de semana passado, aconteceu a Virada Cultural em São Paulo. Pela primeira vez, as “grandes” atrações não estavam mais no centro da cidade. Logo que o prefeito João Doria assumiu, disse que iria tirar o evento do centro e levá-lo para o Autódromo de Interlagos. Muitas discussões, questionamentos, protestos e, por fim, este ano tivemos a virada descentralizada com atividades espalhadas. A maioria dos artistas criticou a decisão e quando saiu a programação começou uma verdadeira caça às bruxas: afinal, tocar ou não tocar?

Tocar! Enquanto houver liberdade para que o artista possa mostrar o trabalho para o público, enquanto o microfone estiver à disposição do discurso do artista, a Virada deve ser ocupada e o palco deve ser lugar de livre expressão. Arte é política. Impossível separar. E quanto mais problemas no País (ou seja...) mais canções, mais gritos, mais luta. 

Arte é instrumento poderoso demais. Em um tempo sombrio, durante a ditadura militar, o artista não podia falar isso ou aquilo, tinha que passar por censores. E hoje, quando escutamos músicas censuradas ou feitas na época, temos uma verdadeira aula de História do Brasil. Tava tudo ali! Tudo na canção. Arte é um ato político, é um posicionamento histórico. 

No Centro Cultural São Paulo, onde muitos artistas independentes se apresentaram, Karina Buhr fez um show poderoso. Para além de tudo que suas músicas já dizem, “você pode se divertir, falar mal dos vigaristas desse país...”, ela tomou o microfone para se posicionar: “Teve uma galera questionando quem estava participando da Virada de Doria, mas Virada não é de Doria não gente. O prefeito não é dono da cidade nem da Prefeitura. A Prefeitura tem a obrigação de fazer as coisas pra gente e a gente tem que exigir as coisas, não sair correndo, minha opinião e quem tá tocando na Virada Cultural não está a serviço do prefeito, está a serviço da cidade”. Minha opinião também e da plateia lotada. 

Os palcos tiveram muitos problemas: estrutura não montada, falta de público, gerador que não chegou e shows cancelados. Mas os artistas estavam lá, fizeram a parte deles dentro do possível. Muitos músicos ocuparam a cidade com suas canções, seus protestos, seus cartazes. E se expressaram com arte e liberdade. A cidade é nossa. A Virada também. 

Centros culturais e teatros independentes foram o ponto alto da Virada. “Mas isso não é ocupar a cidade.” Não da maneira que desejamos, mas é um modo de resistir. O modo que deu. Como escreveu Raquel Virginia da banda As Bahias e a Cozinha Mineira: “Eu sempre vou aceitar estar nos lugares quando puder expressar minha arte sem retoques, minha fala sem retoques”.

 

Música da Semana - Caixa Preta

Música ideal para a nossa semana, com uma versão especial na Virada do Centro Cultural São Paulo. “Quem é que financia? Quem se beneficia?” Além disso, na quinta-feira, dia 25 de maio, sai o aguardado disco Boca. Contagem regressiva valendo – mais dois dias! 

 

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