A culpa íntima e cósmica do homem que matou o sono

Análise: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2012 | 03h16

Depois de assassinar o rei na ilusão de conquistar seu trono da Escócia, Macbeth diz algo como "está feito". Ainda parece aturdido e não se deu conta que será apenas um fantasma de si próprio.

Sua caminhada para dentro do horror é a engrenagem na qual Shakespeare colocou alguém que foge à tipologia dos tiranos insensíveis.

Essa figura de temperamento ambíguo da elite militar sai da ficção para ser uma espécie de espelho freudiano universal. Porque ele é um criminoso que sente culpa, ao contrário de personagens como Ricardo III que, em termos contemporâneos seria um psicopata na política, ou Brutus, que apunhala Júlio César a pretexto de conter seus desmandos.

Sem forçar demais comparações, basta acompanhar o que se passa hoje no Oriente Médio ou ver no Tribunal de Haia a atitude de Charles Taylor de certa Libéria que mal sabemos onde fica. Esses genocidas dormem bem enquanto Macbeth é o homem que "matou o sono".

Ele tem uma culpa íntima e cósmica, fora da noção cristã de pecado. Situação agravada pela fraqueza moral, pois não teve uma causa maior, apenas se deixou levar pelas manipulações da ambiciosa Lady Macbeth.

Há centenas de estudos sobre o casal, mas é interessante o ponto de vista de Harold Bloom, um dos mais conhecidos estudiosos do dramaturgo. Para o ensaísta norte-americano, ambos "são personalidades profundamente apaixonadas".

Com incomparável ironia, Shakespeare apresenta-os como o casal "mais feliz de toda sua obra dramática". Harold Bloom dixit ('disse o mesmo', em latim), mas não é tudo. Só para lembrar: em 1971, Roman Polanski fez da peça um filme sombrio e de extrema violência dois anos depois do assassinato de sua mulher, Sharon Tate (1969). Vejamos como Gabriel Villela apresenta o grande maldito.

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