Paulo Liebert/AE
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'A criança dá oportunidade de a gente rever quem a gente é', diz Camila Pitanga

Protagonista do filme ‘Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios’, a atriz carioca conta como a maternidade mudou sua rotina e sua forma de pensar

Igor Giannasi, Jornal da Tarde

30 de abril de 2012 | 11h50

A atriz carioca Camila Pitanga, de 34 anos, vive seu grande momento no cinema com a personagem Lavínia, em Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, em cartaz na cidade. Envolvida em um triângulo amoroso com o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) e o pastor Ernani (Zecarlos Machado), no interior do Pará, a multifacetada Lavínia exigiu da atriz um profundo trabalho de pesquisa - esforço recompensado e cuja intensidade da entrega dela na interpretação é perceptível na tela. As filmagens começaram logo após Camila ter se tornado mãe de Antônia, que completa 4 anos em maio, fruto do relacionamento com o ex-marido, o diretor de arte Claudio Amaral Peixoto. Ela falou ao JT sobre a preparação para o papel, maternidade e seu pai, o ator Antonio Pitanga.

O que mais chamou sua atenção em relação à personagem Lavínia para querer interpretá-la?

A complexidade dela, essa mulher de mil fases e de muitas crises. Essa possibilidade de mostrar uma versatilidade do meu trabalho. Mas, mais do que isso tudo, é que realmente me entusiasmei com aquela história. Eu me emocionei de verdade com os personagens, não só com a Lavínia.

Como foi o processo para compor sua personagem. Que tipo de pesquisa fez?

Costumo trabalhar mesmo, me preparar fazendo pesquisa de campo, dependendo do universo em que a personagem anda. No caso, a Lavínia tem o mundo das drogas, da loucura, do Pará. Fui lá no Pinel (hospital psiquiátrico), conversei com psiquiatras, entrevistei pacientes, fiz um processo de observação. Vim para São Paulo e fiz aula de butô com a Emilie Sugai, porque achei que isso poderia me dar outros elementos corporais para chegar a esses estados mais críticos. Agreguei tudo o que podia fazer para poder tocar no universo da Lavínia.

Você chegou também a conversar com a atriz Sonia Braga. Pediu alguma orientação para ela?

Dentro dessa minha pesquisa, um dos filmes que eu já tinha visto, mas vi de novo, foi o Eu Te Amo, do (Arnaldo) Jabor, com ela. Era um filme em que, além do tratamento que foi dado às cenas de sexo, o que mais me instigou mesmo foi que tinha uma personagem muito vigorosa. Fiquei curiosa sobre como eles tinham lidado com a improvisação, com uma criação coletiva da cena, daí liguei para ela. Foi um papo lindo, maravilhoso. O que ficou foi um carinho grande dela comigo.

Você trabalhou com seu pai no filme. Como é a relação entre vocês na profissão? Vocês conversam sobre trabalho?

A gente conversa sobre a vida e vida é trabalho, trabalho é vida. Ele é uma referência luminosa na minha vida e foi uma emoção enorme estar ali, contracenando com ele. Meu pai tem uma história no cinema, é inegável. Porque a relação que ele tem com o cinema foi de formação de base da identidade dele. O nome Antonio Pitanga se fez por meio do cinema - ele é Antonio Sampaio. O cinema tem uma importância na nossa família muito grande. Minha mãe (a atriz Vera Manhães) também fez filmes.

Falando de família, você tinha acabado de ser mãe quando começou a filmar. Isso muda muita coisa na vida de uma mulher?

Muda, principalmente a relação com o tempo. O tempo não é só da Camila. A Antônia depende de mim. Lá no filme, eu ofereci um tempo para mim, para estar concentrada, dedicada a esse trabalho. Da mesma forma, nesse final de ano, deixei de fazer outros trabalhos, porque queria estar com ela. Assim como teve momentos em que eu criei algumas premissas para estar trabalhando e estar com ela. Sazonalmente, esse equilíbrio se coloca num local diferente e a riqueza vem daí mesmo. Acho que a criança dá a oportunidade de a gente rever quem a gente é. E isso é saudável para uma atriz, para uma pessoa.

Você está escalada para a próxima novela das 6, que substituirá ‘Amor, Eterno Amor’. Já está se preparando para a personagem?

Já estou com os capítulos. Vou começar a entrar (na história) para poder fazer esse mergulho no novo trabalho.

É um trabalho de época, certo? Deve ter bastante material para se pesquisar.

Com certeza. Já li, por exemplo, um livro do João do Rio, em que ele fala dos anos 20, como o Rio de Janeiro se estrutura, os bairros, os lugares, as profissões. Mas, enfim, está muito no início ainda.

A personagem é protagonista?

É.

Atores negros têm mais dificuldade de conseguir algum tipo de papel? Você sente alguma discriminação em relação a trabalhos para esses atores?

Se eu sinto?

Não, eu digo de modo geral.

E por que a gente estaria falando nisso?

Porque você é uma atriz que é negra e consegue se destacar. Outro dia vi um comentário no Twitter que, na novela das 9, Avenida Brasil, todas as empregadas são negras e parece uma volta aos anos 70.

Não sei, acho que a gente está vivendo uma transição. Acho que a Taís Araújo está aí, tem o Lázaro (Ramos). Enfim, acho que as oportunidades estão se abrindo, sim. Tem muito ainda para avançar, mas gosto do discurso proativo, sabe? Senão a gente fica na lamúria, na indignação. Mais do que da indignação, sou da ação. Então, estou aí, estou trabalhando. Tem uma turma também bacana se formando. Acho que o mercado está se profissionalizando cada vez mais, entendendo que o negro também é mercado, e tendo espaço para isso.

Você foi cotada para fazer o papel de Gabriela (no remake da novela ‘Gabriela’, que deve estrear na Globo em junho)…

Teve especulação em termos de jornal. Nunca ninguém falou.

Não teve nenhuma coisa concreta, então?

Não, não teve não.

Mas é um papel que interessaria?

Ah, que indelicado isso. Tem uma atriz já fazendo, está tudo certo, como tinha de ser. Acho que a Juliana (Paes) vai fazer bem pra caramba, estou botando toda energia boa. Ela foi mãe agora recente também. Uma colega querida. Foi uma escolha e estou aí na bênção, só louvando a escolha.

Você iniciou a carreira muito cedo. Como foi isso para você?

Mas não peguei (a fase de) criança. Fui uma criança livre, solta, sem trabalhar. Na minha adolescência, sim, já estava dividida com uma coisa mais profissional de trabalho. E eu realmente não escolhi, não era uma profissão, ‘ah, quero ser atriz’. Com meu pai ator, fui chamada para fazer alguns trabalhos. Sabe quando você vê e está no rio? E chegou uma hora em que fui para a faculdade, fui cuidando da minha formação, das escolhas de trabalho. Aí, sim, virou uma escolha.

É verdade que você chegou a trabalhar com a Angélica, como angeliquete?

Eu era muito garota, foi bem pouco tempo como assistente de palco, mas não tenho muito o que dizer sobre isso. Não era exatamente um trabalho, era quase uma brincadeira de estar ali junto com outras crianças e acabou não durando muito, porque a coisa se profissionalizou. Ela precisava de uma turma que pudesse acompanhá-la em shows e viagens. Foi breve.

Vocês ainda mantêm contato?

Sim, ela é muito querida. Gosto muito da Angélica. Você pegou isso no Wikipédia, né?

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