‘A crença em um segundo holocausto é real’, diz escritor

Identidade judaica, memória e influências foram reunidas e transformadas em ficção embalada por humor anárquico

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h09

Desde que estreou na literatura em 2000, com o livro de contos Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis (Rocco), o americano Nathan Englander acostumou-se a ser comparado a pesos pesados como Phillip Roth, Saul Bellow e Bernard Malamud. Nada surpreendente - como seus colegas (todos com ascendência judaica), ele se afirma como autor de uma prosa construída por histórias de amor, desilusão e heroísmo, sempre de forma original, derrubando estereótipos e reforçando conflitos internos.

Englander deu um passo adiante com o lançamento de Do Que a Gente Fala Quando Fala de Anne Frank, livro com oito contos editado agora pela Companhia das Letras. Histórias que revelam seu total controle narrativo, tanto na criação de diálogos como na forma de condução da trama. E, na junção dessas duas qualidades, Englander consegue atingir um alto grau de humor, à altura de Bellow e Roth.

Basta ler o primeiro conto, que inspira o título do livro e que vem de uma citação de Do Que a Gente Fala Quando Fala de Amor, de Raymond Carver (1938-1988) - dois casais se reúnem na Flórida, onde se embriagam e fumam maconha. Um dos casais é plenamente adaptado à vida moderna americana; o outro vive sob as normas mais ortodoxas do judaísmo. Aos poucos, forma-se o conflito em um embate de ideias e crenças até se chegar a uma incômoda brincadeira de faz de conta: quem você abrigaria no caso de despontar um segundo holocausto?

A paranoia, na escrita de Englander, é diluída sem perder a essência, como acontece nas clássicas piadas judaicas de Woody Allen. Temas pesados ganham novo formato e com a seriedade preservada. Sobre esse trabalho, Englander conversou com o Estado por telefone, desde Nova York.

Apesar de constar no título, Anne Frank não é personagem do primeiro conto que, à primeira vista, parece se tratar de um jogo mórbido, mas também não é. Afinal, qual era sua intenção ao escrever esse conto?

Não houve uma intenção premeditada: não me posicionei diante do computador com um título e uma história na cabeça. Quero dizer que não foi intelectualmente consciente. Você observou bem, o conto não trata de Anne Frank tampouco sobre um jogo, ainda que isso se estabeleça entre os dois casais. Minha intenção foi mais política ao tratar de História e memória. A possibilidade de um segundo holocausto é real entre várias famílias judias, inclusive a minha - fomos criados, minha irmã e eu, com essa ameaça nos cercando ao longo da vida. Lembro-me da minha mãe dizer que um casal conhecido da nossa família teria condições de nos abrigar no caso de um possível holocausto. É um exercício mental que me interessou em transformar em ficção.

Mas qual é sua relação de fato com o holocausto? Foi algo em que se baseou a sua educação?

Entendo sua pergunta, pois habitualmente escritores judeus preferem se afastar desse assunto - ou, quando aceitam encará-lo, o fazem de uma forma dolorosa. Não é o caso da minha literatura. Mas, veja bem, nasci no subúrbio de Nova York, ou seja, minha experiência com o assunto foi mais pela televisão, apesar da influência familiar. Também tive contato mais direto na época em que vivi em Israel e na Argentina. Pertenço à sexta geração da minha família a nascer nos EUA e, apesar de totalmente adaptado a esse estilo de vida, sem nenhum ressentimento direto a lamentar, acredito que ainda existe uma conexão cerebral com meu tatataravô que torna esse assunto ainda interessante à minha escrita.

E como foi a reação de leitores judeus à sua obra?

Não houve nenhuma reação negativa por aqui - e espero que o mesmo se repita no Brasil. Acredito que não escrevi nada ofensivo ou, na verdade, fui honesto o suficiente para evitar discórdias. Há algumas semanas, durante um lançamento, percebi a chegada de uma senhora idosa que, descobri depois, era uma sobrevivente do holocausto. Confesso que fiquei um tanto nervoso mas logo relaxei quando percebi que ela praticava a diversão favorita dos judeus idosos: contar piadas de judeu. Parece estranho, mas é uma sensação de vitória para eles: ainda estão vivos. E rindo.

O segundo conto do livro, Colinas Irmãs, é fascinante ao mostrar a mulher que, na época da Guerra dos Seis Dias, em 1967, compra uma menina para livrá-la de uma maldição. Ali, você pretendeu tratar de um assunto delicado que é a Cisjordânia e os assentamentos?

Sim, isso mesmo. É um dos contos que parecem mais fascinar os leitores - aliás, estou sendo sondado por uma cineasta brasileira para transformá-lo em filme, ainda não posso revelar nada. Muitos acreditam que eu deveria transformar esse enredo em um romance, mas minha ambição era tratar dos assentamentos judeus em novas terras justamente em um conto. Só assim funcionaria a alegoria da decepção de algumas pessoas, algo como o ruir de um castelo de cartas.

O título do livro faz referência a um grande escritor, Raymond Carver. Ele o influenciou de alguma forma?

Com certeza. Carver faz parte de uma dinastia de autores que me influenciaram decisivamente, como Isaac Bashevis Singer, Nikolai Gogol, Anton Chekhov, Dennis Johnson. O que diferencia Carver dos demais é a incrível capacidade de narrar histórias melodramáticas com uma secura e uma ternura que não transbordam. São tão simples que, às vezes, demoram para arrebatar. Não sou de demonstrar explicitamente as reações que os livros me provocam - no máximo um esboço de sorriso. Mas os contos Catedral e Uma Coisinha Boa me fizeram chorar. Eles me tocaram muito forte.

NATHAN ENGLANDER

ESCRITOR AMERICANO

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