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A corrida do ouro em nova leitura

O jornalista Lucas Figueiredo reconta saga da mineração em 'Boa Ventura!'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2011 | 00h00

A história do Brasil está sendo recontada com muito êxito por jornalistas, como provam os livros - todos best-sellers - do gaúcho Eduardo Bueno, do paranaense Laurentino Gomes e do recém-chegado na área Lucas Figueiredo, mineiro que lança hoje, com debate, no Sesc Vila Mariana, seu livro Boa Ventura! - A Corrida do Ouro no Brasil (1697-1810). Convidado da série Sempre um Papo, o autor conta no livro como Portugal resolveu seus problemas de insolvência financeira buscando no Brasil o ouro que iria salvar da penúria uma corte endividada e invejosa da sorte espanhola. Enquanto Portugal só conseguia levar pau-brasil nos primórdios da ocupação americana, os espanhóis já extraíam do continente mais de 600 quilos de ouro, chegando a quase uma tonelada em meados do século 16.

Figueiredo resolveu contar essa história tomando como ponto de partida uma enorme pepita, do tamanho de um melão, pesando pouco mais de 20 quilos, provavelmente a maior extraída no Brasil no período da corrida do ouro (1697-1810). O rush dourado fez a riqueza e, ao mesmo tempo, a desgraça de muitos que se aventuraram pelas matas em busca do metal, enfrentando índios canibais, febre, fome e, principalmente, a ganância da Coroa, que puniu o sonho de riqueza instantânea com impostos altos e até o confisco. Cansada de ser enganada pelos mineradores, a Coroa apertou o cerco e, em 1763, aplicou um instrumento de cobrança: quem não cumprisse a cota exigida, pagava com violência e prisão.

Voltando à história da pepita, ela foi levada para Portugal, trazida de volta e mais uma vez trancada nos cofres reais portugueses. O torrão só seria exposto pela primeira vez em 1991, desmentindo os boatos de que teria sido roubado pelas tropas napoleônicas após a invasão da capital portuguesa. Mais de 20 mil visitantes o viram antes que ele voltasse ao lugar de origem. Até meados do ano passado outras joias da Coroa - peças de ourivesaria fabricadas na França com ouro brasileiro - permaneciam distantes do olhar público, segundo o autor. Ainda há bastante coisa em Portugal feita com ele. Se dá para salvar novamente o país europeu da insolvência, isso já é outra história. Provavelmente não. É uma ninharia perto do que existia quando dona Maria I, a "rainha louca", subiu ao trono, em 1777. Por essa época, o Brasil rendia aos portugueses nada menos que 8 mil toneladas de ouro ao ano, segundo o autor.

Nascido como uma pauta especial do jornal O Estado de Minas, que queria saber onde estava o ouro extraído no Brasil, o livro Boa Ventura! mostra como monarcas perdulários e sonegadores de impostos ajudaram involuntariamente a transformar uma colônia raquítica de 300 mil habitantes numa Eldorado de aventureiros seduzidos pelo ouro. Em 1697, el-rei já colocava a mão no precioso metal brasileiro, atraindo a atenção de espiões franceses que, instalados em Lisboa, viam chegar navios trazendo ouro em barra para a corte portuguesa. Até padres largaram o serviço religioso e se fizeram mineiros. Subitamente, a costa do Brasil ficou despovoada. Todos correram para as lavras, desafiando as profecias do padre Antônio Vieira, que morreu justamente no primeiro ano (1697) da fome dos exploradores e forasteiros que se embrenhavam na mata sem nenhum planejamento, submetidos à violência de saqueadores e ao deleite dos nativos antropófagos.

O jornalista Lucas Figueiredo, pesquisando em fontes primárias, logo descobriu o mito do Sabarabuçu, lendária montanha de ouro - ou um lago dourado, de acordo com alguns cronistas. Isso mexeu com a psique dos paulistas? "Certamente, em especial com desbravadores como Fernão Dias, que aceitou o pedido de Lisboa para liderar uma expedição em busca do Sabarabuçu." Na época já sexagenário, o bandeirante foi mais precavido que outros exploradores, mas sete anos de trabalho foram suficientes para acabar com sua saúde e, ao mesmo tempo, para registrar seu nome na história como o homem que interligou o litoral com o interior do País.

"O ouro mudou a economia mundial e a cultura da colônia, que sustentava o luxo e a ostentação da corte portuguesa, mas estimulou o surgimento do movimento musical mais elevado das Américas no século 18, além de propiciar a aparição de escolas de arquitetura e arte em Minas, transformada em centro irradiador de cultura", diz Figueiredo, mostrando o outro lado de uma corrida que atraiu 600 mil portugueses em meio século. Todos atrás dos caminhos que levavam ao Sabarabuçu.

Polêmico

Nascido em Belo Horizonte há 42 anos, o jornalista mineiro Lucas Figueiredo escreveu cinco livros, alguns polêmicos como Olho por Olho (2009), sobre a luta armada vista por integrantes do Exército

BOA VENTURA!

Editora: Record

(368 págs., R$ 39,90). Sempre um Papo. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas 141, tel. 5080-3000. Hoje, às 20 h. Entrada gratuita.

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