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Ignácio de Loyola Brandão
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A coragem de uma mulher

A advogada Lygia Maria Jobim entregou esta semana à Procuradoria da República no Rio de Janeiro um pedido de abertura de inquérito civil para apurar as circunstâncias da morte de seu pai, o ex-embaixador José Jobim, durante a ditadura militar. Lygia Jobim foi de importância fundamental em minha vida. E para a literatura brasileira. Somente agora, ao ver sua idade, 64 anos, vejo como ela era jovem e corajosa, quando teve a audácia de enfrentar a censura e o sistema militar, 40 anos atrás.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 02h06

Meu romance Zero foi publicado, como já foi dito centenas de vezes, primeiro na Itália pela Feltrinelli, depois de ter sido recusado por mais de dez editoras brasileiras. Ninguém se atrevia, as punições eram drásticas naquele início dos anos 1970. Proibir o livro era uma consequência natural, que podia se estender à prisão do editor, do autor e o fechamento da editora. Com Armando Falcão, célebre pela frase, "nada a comentar" (igualzinho ao Lula hoje) nunca se sabia até onde iriam as repressões e intimidamentos.

O livro saiu na Itália e foi bem recebido pela crítica, teve boa mídia, ainda que com vendas normais. Porém, a professora Luciana Stegagno Picchio, que lecionava literatura brasileira e portuguesa na Universidade de Roma, e foi a responsável pela saída do romance na Itália, começou a me telefonar - não havia e-mails e cartas não eram seguras -, avisando que um adido militar da embaixada brasileira, estava alertando o Itamaraty sobre o meu livro, alegando que a imagem do Brasil no exterior estava sendo denegrida. "Precavenha-se", acentuou Luciana.

Pouco depois da publicação na Itália, em 1974, recebi uma carta de Lygia Jobim, dona da editora Brasília/Rio, dizendo que tinha acabado de comprar os direitos do Zero. Vendi para a Itália, os italianos revenderam ao Brasil. "E o perigo da publicação aqui?", indaguei. Lygia: "Isto é comigo". Em seguida, brincou: "Estou com a edição italiana nas mãos. Quem você recomenda para traduzi-la?". Não perdi a deixa: "Depende de quanto você paga por uma tradução. Posso fazê-la e será mais que perfeita". Na época, Telmo Martino, o mais mordaz de todos colunistas que surgiram por aqui, comentou: "Zero foi traduzido e lançado na Itália. É a melhor prova de que uma tradução pode melhorar qualquer livro". Anos depois, na noite em que Telmo lançou seu livro A Serpente Encantadora, organizado pelo Washington Olivetto, levei a ele a edição do meu romance em coreano do sul, pedindo: "Leia esta versão e veja se melhorou". Nem meu nome era compreensível naquela língua.

Lygia Jobim tinha então 24 anos, era tímida, bonita, suave e determinada. No dia 31 de julho de 1975, dia de meu aniversário, o livro foi lançado no Rio de Janeiro. Havia policiais na plateia, via-se pelas roupas e pelas notas que tomavam, mas não incomodaram. Nessa noite conheci o embaixador Jobim. Na livraria também estava Enio Silveira, mito do mundo editorial brasileiro, que mais tarde se casaria com Lygia. Esta, teve um plano de marketing que funcionou. A crítica falava do livro sem "denunciá-lo", dizendo: este é o Brasil da ditadura. A primeira edição se esgotou rapidamente, veio a segunda. O livro, em planejamento da editora, espalhou-se pelas universidades, e os jovens o divulgaram de boca em boca. Porém, em novembro de 1976, veio a proibição, que durou três anos.

O então censor que funcionava junto à editora Três, onde eu editava a revista Planeta, me avisou que a Polícia Federal não tinha viaturas para recolher livros, eles deveriam se esgotar naturalmente. Viaturas eram para prender gente. Avisei Lygia, propondo: "Vamos tirar edições clandestinas e continuar a distribuir, vários livreiros topam". Havia focos de resistência. Ela preferiu acatar: "Meu pai é embaixador, se descobrirem as edições clandestinas - e vão descobrir - tudo vai recair em cima dele, o sistema é implacável". Zero se esgotou aos poucos. A Livraria Nobel, situada em frente da Polícia Federal, na rua da Consolação, tinha pilhas na porta. Tudo era perplexidade. Censores nos avisavam e "aconselhavam", policiais nem olhavam para a porta da livraria.

Em 1979 - mesmo ano em que Zero acabou liberado - numa tarde (agora vejo que foi em março), Lygia me ligou contando que seu pai, o embaixador, tinha sido encontrado enforcado na Barra da Tijuca, dois dias depois de ter sido sequestrado de sua casa no Cosme Velho. Jobim tinha revelado que pretendia revelar os esquemas de superfaturamento na construção de Itaipu, que acabou custando dez vezes mais. Com a sua coragem habitual, Lygia Jobim foi primeiro à Comissão da Verdade e agora buscou a Procuradoria. No entanto, ela esclarece: "Não quero indenização, não quero dinheiro. Desejo apenas o reconhecimento de responsabilidades. Itaipu matou meu pai e agentes do Estado destruíram as provas".

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