A coragem de ser feliz

Em A Potência de Existir, o filósofo francês Michel Onfray examina o hedonismo sob a perspectiva do encontro de um prazer responsável

Regina Shöpke, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Um acerto de contas com o platonismo e o cristianismo: é assim que tem sido apresentada a filosofia do francês Michel Onfray. É preciso reconhecer que há muito do espírito nietzschiano nesta empreitada e Onfray não nega sua predileção pelos filósofos iconoclastas e materialistas. Tanto isto é verdade que ele tem se dedicado ativamente à produção de uma "contra-história da filosofia", onde busca resgatar nomes propositadamente esquecidos pela história tradicional. Sem dúvida, o autor do Tratado de Ateologia está na esteira do pós-estruturalismo e, como não podia deixar de ser, também é filho do niilismo que assola nosso tempo. Porém, ao contrário de muitos filósofos contemporâneos, ele não afundou na angústia e na desesperança: Onfray defende um hedonismo radical e profundo como forma de enfrentamento da dor e dos sofrimentos inerentes à vida.

Onfray tem um projeto (ou uma proposta) de vida e pensamento, coisa que a filosofia atual já perdeu de vista há algum tempo - talvez por não conseguir suplantar o niilismo contemporâneo (já tão anunciado por Nietzsche). Niilismo este que nasceu com a derrocada dos valores supremos (no fim do século 19) e que nada mais é do que o crepúsculo de uma moral assentada na transcendência e na ideia de eternidade. De fato, o homem sente-se hoje existencialmente abandonado e desolado. Eis porque o niilismo (este nada de valores em que o homem mergulhou) pode ser entendido como a forma mais profunda de ressentimento contra a vida ou contra a falta de sentido dela. Mas é exatamente aí que Onfray segue a trilha de Nietzsche e procura resgatar o verdadeiro sentido da vida, ou o "sentido da Terra", como já dizia o próprio Nietzsche. E isto quer dizer resgatar a potência de viver, de sentir, de amar, de ser e de estar inteiro. No fundo, o que o homem ainda não entendeu é que foi a metafísica que nos fez viver de mentira (e das mentiras que ela criou), e que está na hora de produzirmos uma vida real. Não existe outra maneira de enfrentar e vencer o niilismo a não ser devolvendo ao corpo a sua potência de existir, isto é, libertando-o de uma moral que retirou dele a possibilidade das alegrias e dos prazeres reais.

Aliás, o título do novo livro de Onfray é exatamente A Potência de Existir. E, como diz seu subtítulo, trata-se de um "manifesto hedonista". É verdade que a ideia da "potência de existir", associada à alegria e ao fortalecimento de nosso poder de ação no mundo, não é de Onfray, mas de Espinosa, e também de Nietzsche - que pensam a alegria como a força maior, como o sentimento que aumenta a nossa potência de vida. Mas Onfray se une a eles e, sobretudo, a Epicuro, defendendo um hedonismo que não tem nada de vulgar e menos ainda pode ser confundido com uma busca desenfreada de prazeres fúteis e passageiros. Ao contrário, o filósofo francês tem verdadeiro horror deste falso hedonismo que busca no consumo a chave para a felicidade. Seu hedonismo se resume num ponto decisivo: buscar o máximo de alegrias, de felicidade, sem fazer mal a ninguém (ou a si mesmo). Este é o princípio básico de sua ética. Seria essa a única maneira de vencer a tristeza e o sofrimento disseminados por uma metafísica e uma religião que levam o homem a entender esta vida e seu próprio corpo como coisas menores e sem valor.

No prefácio do livro, no qual Onfray narra um dos momentos mais dramáticos de sua vida (sua internação, aos 10 anos de idade, em um orfanato salesiano), vemos a imagem de um menino que, mesmo esmagado pelo peso da fatalidade e da brutalidade, decide reagir e ser feliz. Ele se transfigura, ou seja, consegue transmutar a dor e o sofrimento em prazer e alegria (ou na busca deles). Este foi o seu antídoto para não se tornar amargo e para não passar por esta vida sem viver de verdade. É por isso que ele afirma que a "potência de existir" é uma espécie de arte codificada que "cura as dores passadas, presentes e por vir".

Não há dúvida de que a perda de certas crenças fez o homem mergulhar num vazio existencial profundo. Mas a questão é que este vazio é tão metafísico quanto as ideias perfeitas e modelares de Platão. Ele é apenas o reverso de uma mesma moeda. É como diz Nietzsche: quando se mata o mundo superior, transcendente, fica-se com o mundo aparente, o mundo de simulacros, dos falsos objetos e sentidos. No entanto, o erro reside exatamente aí: não existe um mundo aparente e outro verdadeiro; só existe um mundo, e é o nosso. E, se quisermos fazer valer esta vida de verdade, precisamos afirmá-la de um modo drástico e profundo. De certa maneira, a resposta de Onfray para a dureza da vida é exatamente aliviar o peso da existência. Trata-se de um reencontro potencializador consigo mesmo e com a própria vida. "Joga o que te pesa ao mar", já dizia Nietzsche, "joga-te ao mar..." Em poucas palavras: joga fora o que te mata e tenha a coragem de ser feliz.

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA, HISTORIADORA E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE POR UMA FILOSOFIA DA DIFERENÇA (CONTRAPONTO)

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