A cor sem pudores do escocês David Batchelor

Em Chromophobia, o livro (de dez anos atrás), o artista plástico escocês radicado em Londres David Batchelor fala sobre o descarte de elementos sensoriais pelos artistas contemporâneos, a cor sobretudo, crucial para os modernos, mas historicamente associada à frivolidade do feminino, em prol de aspectos da arte conceitual.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Em Chromophilia, a mostra em cartaz no Paço Imperial, no Rio, até 30 de outubro, o "flaneur da cor da metrópole pós-moderna", como classifica o crítico Paulo Venancio Filho, curador da exposição, abusa do amarelo, verde, azul, laranja, rosa e vermelho, e também dos efeitos de luz, transfigurando objetos ordinários.

Professor de teoria da crítica do Royal College of Art, de Londres, Batchelor é incansável pesquisador da cor. Passeando pelas salas do Paço, percebe-se que ele só tem olhos para isso.

Vieram ao Rio obras significativas dessa primeira década do milênio, esculturas e instalações de forte impacto visual. Já na entrada, veem-se três totens, um verde, outro rosa e um terceiro laranja, formados por pequenos materiais de plástico de manuseio cotidiano, em tons fluorescentes, desses made in China, saídos de prateleiras das lojas de R$ 1,99: pregadores de roupas, réguas, escovas de cabelo, pentes, talheres, panelinhas de criança.

Adiante, avista-se uma espécie de anêmona formada por óculos de armação amarela e lentes verdes, que Batchelor comprou aos montes em passagem por São Paulo há alguns anos. A estrutura se repete mais para frente, com lentes verdes, rosas, amarelas e azuis, sobre as quais incide o foco de uma luminária de mesa, que forma um reflexo na parede - a imagem lembra a dos caleidoscópios.

A luz também está dentro de garrafas coloridas empilhadas e suspensas no ar, que formam seu Idiot Stick, e em painéis retangulares também dispostos uns sobre os outros, componentes da Electric Color Tower. Da parede pendem hastes com dezenas de presilhas de cabelo, iguais àquelas que vemos nas bancas dos vendedores ambulantes.

Nesta década, Batchelor expôs duas vezes na Galeria Leme, em São Paulo (que o representa no Brasil), e também participou da Bienal de 2004. Esta é a primeira vez que suas cores chegam ao Rio - uma cidade multicolorida por natureza.

"É uma exposição muito próxima das cores brasileiras", aponta Venâncio Filho. "David se sente mais perto de Hélio Oiticica do que de alguns artistas ingleses. O trabalho dele reage a esse cinza usual da cultura anglo-saxônica, quer se diferenciar daquele pudor em relação à cor."

Curiosamente, dois dias depois de aberta Chromophilia, foi inaugurada uma grande retrospectiva de Oiticica (1937-1980), Museu É o Mundo, a maior já realizada, aliás, sendo uma parte montada no mesmo Paço. O que mais o fascina na produção do artista brasileiro, a quem considera um "gigante da arte moderna"? Justamente o uso da cor.

Novo olhar. A intenção de Batchelor é transformar o modo como enxergamos objetos vulgares, dar-lhes nova vida. Faz uso de itens descartados, como carrinhos de transporte encontrados em ruas londrinas, recobertos de fórmica, e caixas de luz usadas em letreiros de restaurantes, que ganharam lâmpadas fluorescentes. A cor redime o lixo.

A arte que sai do ateliê de Batchelor é de apelo imediato, e agrada facilmente a adultos e às crianças. Mas é também sofisticado. "É uma experiência sensorial muito forte, com vários níveis de compreensão, já que envolve diferentes processos artísticos", ressalta Venâncio Filho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.