A Copa dos americanos

Não são poucos os brasileiros que me perguntam por que os americanos não gostam de futebol. Minhas respostas variaram ao longo dos meus anos no País, mas nunca achei a pergunta fácil. Alguns dos meus interlocutores, e mesmo os amigos, chegaram a insistir na questão, comparando o futebol com outros esportes praticados nos EUA.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

"Como você pode gostar de beisebol, cara? Aquilo deve ser o jogo mais chato já inventado pelo homem", insistiu um conhecido, depois de alguns chopes. "Prefiro assistir a boliche."

Lembro-me de outro, em Paraty, que relatou uma ida sua a uma partida de beisebol nos Estados Unidos. Diz-se espantado com a quantidade de comida consumida no estádio, de cachorros-quentes gigantescos afundados em picles adocicados e ketchup, a sacos enormes de pipoca e cerveja e Coca-cola e Sprite e algodão-doce e batatas fritas e Doritos com queijo, sorvetes, sem falar das maçãs do amor.

"Maçã de amor no jogo!, convenhamos Matheus. O povo gosta mais de porcaria do que do esporte."

No que ele talvez tenha um pouco de razão. Mas quando se é criança, é bacana uma maçã de amor no estádio, vá.

Ensaiei já várias respostas à pergunta sobre a indiferença americana ao futebol, como vinha dizendo. Mas a melhor encontrei, recentemente, no ótimo A Dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura (Companhia das Letras), do historiador Hilário Franco Júnior. Como se sabe, o futebol foi inventado pelos ingleses na segunda metade do século 19, período em que exerciam grande influência no mundo através dos mares. E foi assim que o jogo chegou ao Brasil, à Argentina, ao Chile e até mesmo à Bolívia. Não é por outro motivo que ainda hoje temos times no subcontinente chamados Corinthians, River Plate e, meu nome favorito, The Strongest.

Mas como explica Hilário: "...houve o reverso da medalha: os territórios que formalmente tinham feito parte do Império britânico resistiram à adoção do futebol e continuam ainda hoje secundários no universo futebolístico (África do Sul, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia)."

Simples assim.

Pensei nisso ao ler meu blog predileto na semana passada. Chama-se "The Conversation" e é publicado por The New York Times. Nele, os colunistas do jornal David Brooks (republicano) e Gail Collins (democrata, feminista e muito engraçada) trocam ideias e alfinetadas entre uma coluna e outra, em forma de diálogo.

Na conversa da semana passada, percebe-se que Brooks sente enorme prazer em introduzir e insistir no tópico da Copa do Mundo. Pergunta a Collins se a incapacidade do americano apreciar o futebol seria sinal de um provincianismo crescente no país. O deleite dele deriva do fato de que quem costuma curtir futebol (soccer) nos EUA são os democratas "esquerdistas" e internacionalistas do tipo que vota em Obama, como Collins. E ela, percebe-se, pouco entende do assunto.

Os republicanos, por outro lado, tendem a cultivar os esportes tipicamente americanos - beisebol, stock car, american football, caça e pesca - como sinal do caráter único do país, aquilo que o professor Antonio Pedro Tota chama de "american exceptionalism", cuja expressão mais óbvia, hoje, talvez seja a republicana Sarah Palin - capaz de abater a tiros e retalhar a carne de um urso no campo, dizia ela durante a eleição presidencial.

Na conversa entre Brooks e Collins da semana passada, há uma troca de papéis deliciosa e sutil. O conservador Brooks, que pegou gosto pelo futebol durante uma temporada na Alemanha, tira um sarrinho da progressista Collins (minha colunista predileta, diga-se), usando a Copa como arma. Quem quiser conferir pode ligar no: http://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/06/16/a-world-cup-mentality/?scp=2&sq=the%20conversation&st=cse.

Mas discordo de David Brooks, apesar de apreciar sua artimanha literária. Acho que o americano quer participar cada vez mais da Copa do Mundo. Ouvi dizer que a audiência televisiva do jogo entre as seleções da Inglaterra e dos EUA superou a de qualquer uma das seis primeiras partidas finais do NBA, a tão badalada liga americana de basquete e até o episódio final de Lost (!). E o jornal The New York Post, que pode ser acusado de muita coisa, mas jamais de elitismo esquerdista, estampou na manchete da primeira página, depois do jogo com a Inglaterra: "Os Estados Unidos ganham de 1 a 1!" Tal frase, profunda, se se pensar um pouco, seria impossível alguns anos atrás.

O jogo contra a Eslovênia, muito bom, só vai ajudar.

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