"A Controvérsia" traz Paulo José de volta ao teatro

Afastado do palco desde 1991, quando encenou Um Tiro Que Mudou a História, o ator e diretor Paulo José planejou o retorno, há três anos, com o monólogo Eu Me Lembro. Às vésperas da estréia, porém, cancelou tudo. Motivo: medo. ?Tive pânico de enfrentar o público?, confessa ele, que há dez anos sofre de mal de Parkinson. ?A dificuldade de movimento tirou minha segurança para subir no palco.? Com a estréia de A Controvérsia, amanhã à noite, no Teatro Glória, no Rio, Paulo José finalmente volta à cena, no papel de um emissário papal. Retorna também à direção de um espetáculo.A força de um texto que privilegia a palavra e a companhia de amigos fraternos no palco foram fatores decisivos. José encantou-se com a peça escrita pelo francês Jean-Claude Carrière, que lhe foi apresentada pelo jornalista Pedro Bial, o produtor. ?Trata-se de uma hábil discussão abstrata sobre a questão humana, algo extremamente atual?, comenta ele que, inicialmente, pensava apenas em voltar a dirigir ? a última vez tinha sido em Ponto Limite, em 1989.?Minhas condições físicas oscilam?, justifica. ?Mas, como meu personagem praticamente não tem marcações (fica quase todo o tempo sentado), fiquei mais seguro.? Também uma mudança de hábito foi decisiva para reconquistar a coragem: Paulo mudou a medicação e passou a fazer ginástica bioenergética, preparação vocal e treinamento para a recuperação de movimentos. O convite para comandar a apresentação de A Controvérsia foi determinante.Na peça, o personagem de Paulo media uma discussão entre o missionário Bartolomeu de Las Casas (Matheus Nachtergaele), defensor da humanidade dos índios, e o teólogo Juan Ginés de Sepúlveda (Otávio Augusto), padre disposto a provar que indígenas não são filhos de Deus. ?A discussão se desenvolve ao estilo das peças francesas, que são mais racionais e valorizam a palavra e a discussão?, argumenta. ?O enredo segue por pistas falsas até mostrar o que realmente estava em jogo: a liberação do comércio negreiro, uma vez que os índios não serão mais tratados como objetos.?Esses aspectos fascinaram o ator, desiludido com o rumo tomado pelo teatro nos últimos anos. ?Minha geração encara o teatro como um processo: uma coisa é fazer teatro e pesquisar todos seus aspectos; a outra é montar uma peça digestiva, que dura uma hora e só antecede a ida do espectador ao restaurante?, compara.Amigos - Firme em seus princípios, Paulo cercou-se de bons companheiros. ?Otávio é um ator sério, sóbrio e tem uma potência vocal admirável; já o Matheus é o melhor representante da nova geração, com um raro talento.? Convidou ainda Ivan de Albuquerque que, por também sofrer do mal de Parkinson, mas em estágio mais avançado, estava afastado do palco. E, em participação especial, trouxe o comediante Ankito. ?São pessoas de teatro que falam a mesma língua?, afirma.Completam o elenco três atores índios, que recitam seus diálogos na própria língua. Segundo Paulo, além da autenticidade, foi a melhor alternativa à solução fácil de um ator inventar uma linguagem inexistente. ?A fidelidade à palavra é essencial?, reforça ele, que optou também por um cenário modesto, formado apenas por mesas e cadeiras. O fundo e as laterais do palco serão recobertos com pano preto para realçar o figurino, detalhado em sua reconstituição histórica. ?O palco será como um jogo de xadrez, em que peças muito bem esculpidas se movimentarão ao sabor dos diálogos.?O entusiasmo do diretor contagiou o elenco. ?O carinho com que orienta cada ator é emocionante?, observa Otávio Augusto. ?Paulo consegue, com isso, uma unidade em torno de um texto tão atual.? A afinidade, explica, vem da tradição teatral. ?Enquanto o Paulo fazia parte do Arena, eu pertencia ao grupo do Oficina e o Ivan de Albuquerque, junto do Rubens Correa, era do pessoal do teatro Ipanema, todos essenciais na evolução do nosso teatro.?Também impressionado com a sensibilidade do diretor (?Não é impositivo, mas hábil em conseguir a melhor atuação?), Matheus Nachtergaele suspeitava ser uma peça de tribunal. ?Mas é muito mais profundo, pois aproxima duas pessoas com um mesmo problema: manter o complicado equilíbrio entre o poder do Estado e o da Igreja?, analisa. ?E o final é tristemente irônico.?

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