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A contramola que resiste

João Ricardo fala dos antológicos álbuns da formação clássica dos Secos & Molhados reeditados em vinil

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ney Matogrosso e João Ricardo, as principais figuras dos Secos & Molhados, não conseguem conceber porque ainda há gente que sonhe com o retorno do grupo. Com o conflito de interesses que levou à dissolução do trio (completado por Gerson Conrad) em 1974, os dois perderam o contato completamente. Cogitar uma volta, jamais. Seria mais fácil convencer Rita Lee a se juntar ao revival dos Mutantes. A produção Virada Cultural de São Paulo chegou a sondar Ney para esse improvável reencontro, prontamente recusado. João nem sabia disso. Ney, porém, poderá ser visto no evento em abril com a Banda Isca de Polícia, em tributo a Itamar Assumpção. A confirmação ainda depende de sua agenda de shows.

Resta aos fãs se contentar com os dois álbuns antológicos lançados em 1973 e 74, que agora ganham reedição em vinil de 180 gramas pela Polysom. O primeiro Secos & Molhados é uma pedrada seca, transgressor como as atitudes e as maquiagens dos homens que colocavam pela primeira vez na música brasileira a homossexualidade em evidência sem rodeios e com seriedade, como diz João.

Mentor musical do grupo (que começou como quarteto e virou trio), João Ricardo assinou arranjos, direção musical e a maioria das composições nos dois álbuns, além de pautar a sonoridade a partir de seu violão.

Ainda com o baterista Marcelo Frias, que deixou a banda antes da turnê de lançamento, o álbum de estreia virou sucesso instantâneo entre gays, crianças, donas de casa, roqueiros e malucos em geral. Vendeu 300 mil cópias no primeiro mês e encostou no milhão em menos de um ano. Pelo menos metade das faixas virou hit: Sangue Latino, O Vira, Rosa de Hiroshima, O Patrão Nosso de Cada Dia, Fala (com arranjo de Zé Rodrix), Assim Assado.

"Era um disco de rock brasileiro, não o considero de MPB", diz João. Simultaneamente, eles, os Novos Baianos, Raul Seixas e Alceu Valença davam os primeiros passos para um rock com cara de brasuca. "Os Mutantes faziam rock inglês e americano no Brasil, era diferente", diz João. "Eu não tinha ligação com a Tropicália, mas com os Beatles. E queria fazer no Brasil uma música que fosse tão original e tão boa quanto a deles. Era pretensioso, claro, mas eu era muito garoto quando cheguei de Portugal."

Era também a primeira vez que se unia rock e poesia no Brasil. Politizados explicitamente ou nas entrelinhas, versos de Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Solano Trindade, Paulinho Mendonça e João Apolinário, musicados por João Ricardo, passaram batidos pela tacanha censura da época. Os próprios censores, como lembra João, acabaram tendo "atitude de fãs" deles, o que desmontou a repressão. "Eles achavam bonito, legal, os filhos adoravam. Quando se deram conta do fenômeno, não podiam fazer mais nada."

Enquanto rebolava provocativo, deixando queixos caídos e divertindo crianças e adultos com O Vira, Ney soltava os agudos dando o toque que "Na noite da floresta/ A Lua iluminou/ A dança, a roda, a festa". Sangue Latino é ainda mais bandeiroso: "Quebrei a lança/ Lancei no espaço/ Um grito, um desabafo/ E o que me resta é não estar vencido". De melodia densa, Primavera nos Dentes, porém, dá apunhaladas mais profundas nesse sentido, evocando "quem tem consciência para ter coragem" e " inventa a contramola que resiste".

Progressivo. Se o primeiro tinha uma crueza que "era quase uma ofensa para os músicos", no auge do rock progressivo, o segundo Secos & Molhados, sem o impacto do antecessor, embora também muito bom, já cedia à tendência. "É um disco mais aprimorado nos arranjos, que estavam mais relacionados com a época que se vivia, que era do som progressivo, do perfeccionismo tocando", diz João. Um bom exemplo é Flores Astrais, a faixa de maior sucesso, entre tantas boas que ficaram esquecidas.

As composições seguem a mesma linha do primeiro, novamente unindo, na maioria, melodias de João sobre versos de literatos, como Julio Cortázar (Tercer Mundo), Fernando Pessoa (Não: Não Digas Nada), Oswald de Andrade (O Hierofante), João Apolinário (Flores Astrais, Voo e O Doce e o Amargo), Paulinho Mendonça (Medo Mulato). "Eu me lembro que não gostei de Delírio (Gerson Conrad/Paulinho Mendonça), achava muito ruim e Ney me convenceu a colocá-la no disco."

O grupo terminou sem nem sequer fazer show de lançamento do segundo álbum. Ney Matogrosso foi o único que manteve uma carreira solo bem-sucedida até hoje. João Ricardo fez bons discos solos ainda nos anos 1970, depois retomou o nome Secos & Molhados, sem o mesmo impacto e sucesso do original.

Para ele, voltar hoje com o grupo seria impossível, "mesmo tecnicamente falando". "Além de sermos sexagenários, que já é complicado no que diz respeito a fazer algo que surpreendesse as pessoas, teria de ser calcado naquilo que é fundamental, que é a música, não na aparência. Musicalmente, Ney, como tantos outros, é burocrático. Nós nunca brigamos, mas quando o grupo se separou, o Jornal da Tarde fez uma reportagem ouvindo dois dos três integrantes, eu fiquei de fora. Então quando duas pessoas dizem que você é um ditador, isso e aquilo, qualquer coisa que eu diga depois não tem importância nenhuma. A bomba já foi lançada. Esse foi o problema central, nada mais do que isso."

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