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A contista argentina Samanta Schweblin fala de 'Pássaros na Boca', que a lança no Brasil

Escritora fala de seu elogiado trabalho, tido como herdeiro de Borges, mas no qual ela vê influência dos norte-americanos

Ariel Palacios ,

30 de março de 2012 | 22h00

BUENOS AIRES - Ela é considerada pela crítica argentina “herdeira da literatura de realismo fantástico” de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. Samanta Schweblin, 34 anos, agradece a lisonja, mas recusa o rótulo de forma assertiva: seus contos, argumenta, são “muito realistas, embora as situações sejam anormais”. 

Vencedora do Prêmio Casa de las Américas de 2008, Samanta - eleita em 2010 pela revista britânica Granta como uma entre os 22 melhores escritores de língua espanhola da nova geração e elogiada por Mario Vargas Llosa - começará a ser conhecida pelo leitor brasileiro com a publicação aqui de Pássaros na Boca, que chega agora às livrarias.

Os contos de Samanta, que participará da 1.ª Bienal do Livro de Brasília no próximo dia 14 de abril, possuem como marca “elementos perturbadores”, que a escritora apresenta com precisão e contundência. As certezas e a serenidade “ficam de lado” quando alguém lê um conto de Schweblin, diz a crítica portenha. 

Embora formada em cinema, a escritora começou a vida profissional montando uma agência de design. “Meu plano A sempre foi escrever. Mas, para concretizar o plano A, precisava de um plano B, que me desse um retorno financeiro”, explica ela. “No entanto, a agência cresceu muito rápido e me aniquilava o tempo para o plano A. Por isso, quando recebi uma bolsa do governo mexicano em Oaxava, ‘baixei a persiana’, deixei a agência para meus empregados e decidi que só ficaria com o plano A. É difícil viver de escrever, mas dá para se manter dando aulas de literatura. Minha vida agora é mais austera, menos estressante e com mais tempo livre. E essas são três coisas importantes para o espaço da escritura”, diz a ficcionista.

Samanta Schweblin conversou com o Estado em um dos velhos redutos portenhos do tango, o café Homero Manzi, no pacato bairro de Boedo, onde reside. Ali, sentada contra a janela, a xícara do espresso se esvaziando devagar, fez a defesa de um dos elementos fundamentais de sua narrativa: “A ‘velocidade’, ao contrário do que se acredita por aí, não é ‘superficialidade’. Não é mesmo. Velocidade é precisão. E é sutileza. Mas, acima de tudo, é retirar metade da história do papel impresso e colocá-la na cabeça do leitor.” Acompanhe, a seguir, a entrevista. 

Seus contos poderiam ser facilmente transpostos para o cinema ou TV, pois possuem um lado visual forte.

Eu venho da carreira de cinema, e não de letras, ao contrário do costumeiro para quem quer ser escritor. Mas, ter se esquivado da formação em letras foi uma decisão inteligente, pois minha intenção era a de escrever histórias. E a carreira nas letras aqui na Argentina é muito acadêmica. Ia aprender muito sobre a literatura espanhola do século 13, mas não a contar histórias. O fato é que aprendi a “contar” histórias na ilha de edição, vendo como cortar uma cena ou juntá-la com outra. No entanto, não tive na escola o background que teria tido se tivesse feito letras. Esse background eu precisei adquirir de forma autodidata e improvisada. O lado visual tem um peso importantíssimo para a minha geração.

Os pouquíssimos contos de Jorge Luis Borges levados ao cinema são os mais evidentes e menos reflexivos...

Borges é alucinante. Mas meu grande amor foi Adolfo Bioy Casares. Bioy, entretanto, é mais visual. O escritor mostra e o leitor conclui e entende. O entendimento não está em todas as páginas. O entendimento está na cabeça do leitor.

Seria algo interativo?

Sim! E nesse caso, tiro o chapéu para Clarice Lispector, pois, a respeito muitíssimo... e dou os parabéns aos brasileiros por tê-la. Ela sofria com a “não palavra”. A palavra mais citada não pode estar no texto... tem que estar na cabeça do leitor. Também gosto muito de Bernardo Carvalho e Daniel Galera, de quem li Mãos de Cavalo, que adorei.

Se o conto complementa-se com a ação dos leitores, quando termina suas histórias você costuma mostrá-la para os amigos, para leitores comuns?

Não cursei letras, como disse, mas fiz muitas oficinas de escrita. E delas guardei o costume de mostrar os textos aos colegas. As datas de reuniões com eles nos obrigam a fechar, concluir algo, e polir o texto. Mesmo se não estou de acordo com a outra pessoa sobre meu conto, o olhar dela é importantíssimo, pois percebo o que não funciona, o que não se entende. Essa instância de leitura com os outros é fundamental.

Os críticos, colegas ou leitores tentam encontrar alegorias em seus textos?

(Sorri) Sim! E, em grande parte dos casos, em coisas que não têm nada a ver. Uma vez, um editor inglês me explicou - a mim, a escritora! - que meu conto Matar Um Cachorro falava, na realidade, sobre a ditadura argentina... E ele tinha tanta certeza disso! (ri) Mas, há um lado positivo, que é a universalidade da literatura, pois a partir do momento que alguém tenta explicar um conto de uma única forma, perde.

De onde vêm as ideias para os contos?

Irman, de Pássaros na Boca, veio em parte de algo que aconteceu com um casal de amigos que estavam na estrada, com muita fome, e decidiram parar num bar de um posto de gasolina. Mas ninguém vinha atendê-los. Finalmente apareceu o garçom, que estava atrapalhado porque sua mulher havia desmaiado no meio da cozinha. Juntei isso com uma cena que vi numa loja, na qual os dois donos tinham encontrado uma carteira de um homem que a havia perdido. Dentro dela tinha uma foto velha e uma bala de menta toda amassada. Tudo estava gasto e velho. Mas a pessoa a mantinha ali na carteira por algum motivo... deveria ter um grande valor para aquele senhor. Só que os dois sujeitos jogaram fora a carteira. Juntei as duas ideias para o conto.

Seus contos possuem ritmo frenético.

A velocidade é algo que me interessa muito. Existe a ideia de que a leitura veloz é leitura superficial. E eu penso o contrário. Acho que a velocidade na leitura é concedida pela profundidade nas palavras. Por exemplo, se eu digo, “lá fora faz frio e chove”, você, como leitor, entende que “lá fora faz frio e chove”. E nada mais do que isso. Como leitor, você está entendendo a mesma frase. Mas, se por acaso, escrevo “um homem sem mãos bate à minha porta para me vender uma fotografia de minha casa”, eu, a escritora, coloquei apenas uma frase. Mas, na cabeça do leitor pulam muitas coisas: “Quem é esse homem? Como ele bate na porta se não tem mãos? Por qual motivo ele fez uma foto de minha casa... Por que ele quer me vender essa foto?” E ainda se pergunta: “E como ele fez a foto, se não tem mãos!?” Isso me fascina. E por isso gosto tanto da tradição americana, que é a de escrever o máximo possível em uma única frase. Gosto disso, o que ocorre dentro da cabeça do leitor. Velocidade é profundidade, não é superficialidade.

E esse estilo é útil para segurar o leitor, na era da internet e da rapidez no cotidiano?

Por isso acredito que seja mais fundamental do que nunca ser visual. E além disso, temos de deixar que o leitor participe. Mas é preciso explicar uma coisa sobre isso, pois normalmente, quando falamos em participação do leitor, as pessoas acham que se trata de deixar um final aberto. Ou um final que não seja totalmente claro. Porém não é isso. É exatamente o contrário. Acho que o final deve ser fechado. Gosto de ter o controle total do texto. Mas o escritor precisa avançar nessa história, tête-à-tête, par a par com o leitor. Na hora em que não damos espaço para o leitor, a história perde...

Os contos são, hoje, um gênero literário um tanto desprezado, apesar da grande tradição de escritores como Borges, Cortázar ou Poe.

Às vezes, quando me perguntam o que faço, ao ouvir a resposta, que escrevo contos, devolvem: “Ah, você faz contos infantis?” E dentro do meio literário, o clima é similar. Tenho a sensação de que meus editores têm fé em mim, pois parece que eles acham que não sou uma contista... acham que sou uma potencial novelista! Devem achar que uma hora vou “tomar vergonha na cara” e começar a escrever novelas. Mas eu sou uma contista nata! No entanto, não sou uma militante do conto. Escrevo contos porque acho que minhas ideias funcionam em contos. Caso algum dia eu tenha uma ideia que funcione em uma novela, escreverei uma novela, sem problemas. Não quero usar uma ideia que seja adequada para um conto, esticando-a para uma novela.

Se o rótulo é inevitável, pelo menos para ajudar os livreiros na hora de colocar os livros nas estantes, como gostaria de ser catalogada dentro do amplo leque literário? É uma escritora de realismo fantástico, tal como vários críticos a enquadram?

“Realismo fantástico” é uma expressão estranha. Exceto um ou dois casos em Pássaros na Boca, os contos, em sua maioria, são realistas, embora estejam concentrados em situações anormais. Poderão ser anormais... mas são superrealistas. Não é literatura fantástica, que é um gênero que deixa o leitor em um lugar mais confortável. Eu me sinto segura ao ler, por exemplo, Frankenstein. Mas, nesses meus contos superrealistas, os problemas poderiam ocorrer com o próprio leitor. Não tenho, contudo, nada contra a literatura fantástica.

Você tem fascínio pelos elementos perturbadores...

Isso é o que coloca em andamento meu desejo de escrever. Se não encontro nada perturbador, não me interessa narrar. Sem o elemento perturbador, não posso armar o conto.

Quando começou a escrever contos, a internet já era um fato consumado. Seu processo de escritura ou sua obra tem influência da internet?

Muitos leitores me disseram que compraram livros meus porque viram contos na internet. Entretanto, não acho que a web tenha um reflexo direto na literatura. Ainda assim, digo que nossa geração de escritores está conseguindo coisas muito interessantes que não teriam sido possíveis sem a internet. Por exemplo: há pouco li um texto do brasileiro Santiago Nazarian, que ainda não está publicado. Como era antigamente? Ora, um escritor em Montevidéu publicava algo no Uruguai. Se a venda era boa, dois anos depois chamava a atenção de editoras da Espanha. E, se tivesse boa repercussão em Madri, uns dois ou três anos depois chegava a Buenos Aires. Entre uma coisa e outra, às vezes eu só podia ler um autor uruguaio uma década depois que havia escrito o livro. Agora a coisa é diferente, pois é “ao vivo”. Os integrantes desta geração, graças à internet, nutrem-se mais entre si. E a internet permite um contato mais estilístico do que geográfico. Ocasionalmente posso ter mais contato por afinidades com um escritor mexicano do que com um argentino que também mora, tal como eu, neste bairro, Boedo.

PÁSSAROS NA BOCA

Autora: Samantha Schweblin

Tradução: Joca 

Reiners Terron

Editora: Benvirá (223 págs., R$ 29,90)

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