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A conspiração

É preciso ter esperança, e alguma sanidade, sem perder a ternura jamais

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 03h01

Jean estava desolado. Acessava a lista das músicas mais tocadas no aplicativo do celular e encontrava uma coletânea interminável de sons terríveis, letras vulgares e guinchos colossais. Observava a lista dos livros mais vendidos e identificava bobagens. Tentou ver filmes de sucesso e observou humor raso, piadas chulas, carros destruídos e enredo inexistente. Isso já seria ruim, porém, de longe, o pior era o público atento que ria como se as coisas maravilhosas estivessem sendo enunciadas. Estava desolado com o padrão cultural do país. 

Rapaz culto, Jean contemplava sua biblioteca e ponderava: Dostoievski produziu estes livros sob o regime opressivo do czar. Essa música sensível e poética tinha sido feita por Chico Buarque em plena ditadura no Brasil. Shakespeare não vivera liberdade de expressão! Cervantes foi contemporâneo da Inquisição e do Absolutismo dos Filipes. A música de Bach não fora gestada em um Estado Democrático de Direito. A genial Clarice Lispector lançou A Paixão Segundo G.H. no ano expressivo de 1964. Amava Caetano Veloso e imaginava: “essa música era da época do AI-5”. 

Jean estava inquieto. Ligou a televisão e surgiu o Big Brother. Assistiu por cinco minutos. A inquietação virou melancolia profunda. O que faltava para a cultura brasileira e mundial repetir seus triunfos do passado? 

Ao fim da tarde, ele teve sua epifania. Era exatamente isto! A liberdade de expressão, o fim da censura prévia e a superficialidade das redes tinham deixado que a água das ideias fluísse sem obstáculos. Sem pedras, cachoeiras e curvas, o rio do saber virava uma canaleta de concreto previsível. A ostra não sentia o incômodo e a pérola não surgia. O sistema imunológico ficara viciado em bactérias previsíveis. Sem grandes temas, ficamos acompanhando pessoas comuns se irritando em casas vigiadas por câmeras. Orwell imaginou o Big Brother em uma ditadura (1984). Qual a diferença para aquele que Jean via? Não existia o poder totalitário! Sumiu o autoritarismo que causa estranheza, enfrentamento e reflexão. Dada aos borbotões, a liberdade virara entorpecimento. “Eu preciso de uma ditadura para salvar a cultura do país”, pensou Jean. 

A ideia virou obsessão. Estudou como criar clima para um golpe de extrema-direita. Por que não um golpe comunista? Ele analisou a URSS e Cuba e constatou que golpes de esquerda geravam menos criatividade artística. Tinha de ser um golpe militar conservador! Em um ano, pensou, jovens macilentos iriam às ruas, poetas fariam novos ‘poemas sujos’ e canções de protesto brotariam em ondas renovadoras. Com atrocidades, pintariam Guernicas. Haveria uma nova idade do ouro da MPB. Com o tempo, a ditadura cairia, como caem todas, e a cultura teria recebido uma lufada renovadora. A frase de Berenson, epígrafe da Paixão Segundo G.H. vinha a sua cabeça: “Uma vida plena pode ser aquela que alcance uma identificação tão completa com o não-eu que não haja mais um eu para morrer”. A vida plena estaria em um bom golpe! Os Atos Institucionais gerariam telas; a censura, vanguardas; a repressão, novas Clarices.

Jean entrou em redes sociais denunciando o “comunismo” que estava tomando o país. Fez montagens de fotos para mostrar que a universidade estava afogada em esquerdismo “gayzista” e vivia em depravações regadas a drogas e dinheiro público. Insinuou, denunciou, protestou e continuou falando que a URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) era uma realidade que estava tomando tudo. Era um plano bem trabalhado. Com medo, parte da elite e os quartéis dariam um golpe para salvar a família, a moral, a propriedade e as tradições cristãs do Brasil, ameaçadas pelo Papa Francisco e pelos democratas dos EUA. Suas redes bombaram com mais gente que acreditava nisso. 

Jean admirou-se que seu plano atraísse tantos seguidores. Virou celebridade. Houve lives tendo como tema as ideias dele. O uso do cachimbo deforma a boca e nosso protagonista foi acreditando de fato. Não era mais para salvar a arte. Ele passou a achar de verdade que seu namoro estava em risco, seu carro popular seria confiscado e o obrigariam a ir para um Gulag vermelho. Não demorou e Jean surtou em definitivo.

Perdeu a razão e passou a sair à rua com espada de cruzado medieval, querendo libertar a Jerusalém celeste conservadora. Foi internado à força pela família desolada. Pouco antes de ser sedado, ele entendeu que a conspiração estava completa: o enfermeiro estava de jaleco branco, mas, sob a roupa hospitalar, Jean contemplou o rosto emblemático de Che Guevara a sorrir na camiseta. “Vocês venceram”, foi a última frase antes do Valium derrubar seus sonhos de redenção. É preciso ter esperança, e alguma sanidade, sem perder a ternura jamais.

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

 

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