A consciência dos insetos

Para evitar o desgaste de existir, criamos explicações sobre o sentido e frases de ânimo

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 15h47

“A vida é só uma sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, toda som e fúria, sem querer dizer nada.” Assim Macbeth define, de maneira sombria, a existência humana na tradução de Barbara Heliodora. A melancolia cínica do escocês tem de levar em conta o momento: ele acaba de receber a notícia da morte da esposa. As frases não traduzem apenas a dor do viúvo. Elas trazem três afirmações duras: a vida é passageira, é ruim e não apresenta nenhum sentido. 

Há opositores da ideia. Para ficar no universo shakespeariano, a personagem Falstaff surge em várias peças com seu apetite imbatível, seu humor permanente, encarnando sempre o conviva agradável e otimista que nos libera do peso da censura pela entrega ao álcool e aos instintos. Fernando Pessoa disse que ele tinha o “amor gorduroso da vida”.

É bom congelar personagens polares: Macbeth deprimido nas charnecas e Falstaff rindo e bebendo ao sul. Shakespeare é maior do que isso. O usurpador do trono escocês luta até o fim pelos seus objetivos e não perde chance de reforçar que tem a coroa e a vida, porque nenhum homem nascido de ventre feminino poderia matá-lo. O nobre que expressou o despojamento absoluto da metafísica morreu lutando porque acreditou em profecias. No outro canto do ringue, Falstaff, que passou a juventude com o príncipe herdeiro, é abandonado pelo companheiro de farras quando Hal é obrigado a assumir o papel de Henrique V. O festeiro termina desiludido e o melancólico morre lutando e tentando reverter a derrota. 

Os religiosos têm um argumento pronto e completo sobre a vida: tudo tem um sentido porque foi criado por Deus. Uma das forças da religião é esta: apresenta um leque universal de motivos para cada dor e cada alegria. Nunca houve resposta mais ampla e consoladora do que a da fé: você pode não entender, mas um divino mentor estabeleceu assim. Como notaram Sartre e Dostoievski, o custo do amparo é a limitação da ideia de livre-arbítrio. Subjetivamente, creio que o que a religião entrega como explicação é muito superior ao que ela possa negar como valor. Isso justifica o sucesso do pensamento que mira no plano divino o sentido de tudo, primeiro motor e destino final das nossas angústias e desejos. 

Estou voando alto. Quero voltar ao solo. Não vamos pensar, em pleno domingo, nas linhas amplas e majestosas da humanidade. Ignoremos os conceito gerais de felicidade, as altitudes do trono escocês, as platitudes da mesa do jovem príncipe em Londres. Falemos da nossa vida linear, repetitiva, tecida no macramé do desejo e da frustração.

Viver pode ser definido como repetir. Você acordou, enrolou um pouco ou muito no leito, comeu algo, usou o banheiro. Com sorte, encontrou os mesmos rostos familiares pela casa (quem tem filhos jovens, por vezes, tem surpresas com anônimos andando pela cozinha como sombras infratoras do sexto mandamento). Leu seu jornal, está alegre ou entediado com este texto. Vai tomar um banho, almoçará de forma mais ritualística por ser domingo, terá uma queda de entusiasmo no início da noite de hoje, dormirá e, amanhã, com sorte, irá para seu trabalho. A segunda-feira encontrará seu ocaso e a terça-feira surgirá. Quando você se der conta, terá o fim de tarde da sexta-feira e a alegria o tomará. No domingo, provavelmente, recomeçará o ciclo descrito. 

Semana após semana, anos após ano, até o fim, só que cada vez com menos saúde. Para tornar palatável essa descrição insuportável, teremos feriados, viagens e alegrias. É possível que o rosto anônimo da madrugada da sua casa tenha virado genro ou nora e, pelo menos, agora, tenha um nome. Mais festas, mais alegrias, decepções recorrentes, novos começos e muitos finais. Recomeça tudo, cada vez com menos saúde. 

Para evitar o desgaste de existir, criamos explicações sobre sentido, convenções culturais, frases de ânimo e medicamentos. E se, por um minuto, pensássemos que a dolorosa doença da depressão, tão forte e complexa, não fosse uma doença. E se, para aumentar nossa consciência, imaginássemos que o deprimido, na sua dor dilacerante, fosse uma espécie de iluminado, alguém que saiu da caverna platônica de imagens falsas? E se o desalentado fosse o sadio e aqueles que riem, que se levantam com energia, que enfrentam adversidades com esperança fossem, na verdade, os desequilibrados? Diante da dor constante de ser, bem definida pelo Hamlet no seu monólogo mais famoso, será que aqueles que não sentem desespero total seriam os verdadeiros doentes? 

Não deixa de ser estranho que o ser com maior consciência na obra A Metamorfose, de F. Kafka, tenha sido aquele que se viu transformado em enorme inseto. Ora, sua irmã, seu chefe e outros que chegam à porta estão imbuídos do dever e da normalidade da vida. O único com consciência e inteligência, Gregor Samsa, sofreu a metamorfose para algo que a tradição inventou como uma barata. Também é uma barata que habita uma das partes mais fortes da Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector. Ali, no ser fugidio, de vida breve, estaria sintetizado o medo de que a existência não seria o inseto nojento, mas apenas um reflexo da nossa inutilidade. Seríamos baratas mais sofisticadas, asseadas, com valores e com Deus? É uma pergunta incômoda. Bom domingo a todos vocês. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.