A consciência da vida em 42 sonecas

Acordes, a nova história do cartunista, dublador, ator, roteirista paulista Rogério Vilela (um cartunista que é também estrela de stand up comedy), é uma graphic novel em três partes. A primeira parte, que acaba de sair, é um vertiginoso mergulho num universo que mistura Borges com A História Oral do Mundo, de Joe Gould.

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2012 | 03h09

Pode-se encontrar relatos familiares na obra de Vilela, como o caso do Escriba da Pedroso de Morais (Raimundo Arruda Sobrinho), o homem que viveu 33 anos como morador de rua, 18 deles na Avenida Pedroso de Moraes, escrevendo compulsivamente uma obra sem fim sob o codinome de O Condicionado.

Na HQ de Vilela, um casal de amigos brasileiros, um cara e uma mina, em férias na Argentina, atropela um velho homeless na Patagônia. Levam o velho para casa, e a garota descobre que o velho é esquisito. Come um dicionário inteiro, arrancando-lhe página por página. Como Seymour Glass, personagem de Salinger, o velho foi um prodígio e uma celebridade quando criança. Chegou a ganhar o epíteto de O Homem Mais Famoso do Mundo, mas amarga um fabuloso ostracismo no momento. O velho promete à garota, Bia, contar-lhe sua vida em 42 "acordes" (após acordar e dormir 42 vezes).

O homem, que se chama Antonio Ferreira da Rocha, lembra de sua infância, e de como foi diagnosticado com alotriofagia (o hábito de comer substâncias não ingeríveis). Os sonhos programados do Homem Mais Famoso do Mundo são rigorosos e ordenados, e neles revive uma gangorra da nostalgia moderna, um painel da evolução das séries de televisão, dos brinquedos, dos gadgets eletrônicos, da memória gráfica de um século. Até Silvio Santos comparece como personagem, sofrendo bullying ao vivo de uma das crianças prodígios que utiliza em seus programas de auditório (o personagem central da HQ).

"Baseado numa história real, que ainda não aconteceu", é o preâmbulo da graphic novel, acompanhado por uma citação de Rubem Braga ("Tudo o que nos separava subitamente falhou").

Nos anos 1990, Rogério Vilela foi um dos fundadores (com Jotapê Martins, Octávio Cariello, Roger Cruz e Marcelo Campos), do núcleo de criação de ilustrações e desenhos animados batizado como Fábrica de Quadrinhos, em Perdizes. Teve algumas tiras, os Canybites, publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo. Em 2002, com outros 40 brasileiros, integrou o projeto de exportação de HQs nacionais chamado ConSecuencias, levado a Madri, Espanha.

Esse é seu trabalho mais importante como artista gráfico. O uso impecável do preto e branco, a utilização da tipologia do "desjejum" do personagem como elemento narrativo, tudo conspira para que seja uma obra-prima. Mas ainda faltam dois capítulos. / J.M.

Roberto DaMatta. O cronista, que escreve às quartas-feiras nesse espaço, está em férias

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