A consagração da violência

Raimundo Carrero (livro do ano) e Edney Silvestre (autor estreante) são os ganhadores do Prêmio São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2010 | 00h00

A violência sob formas diversas seduziu os jurados do Prêmio São Paulo de Literatura cujos vencedores foram anunciados na noite de segunda-feira, no Museu da Língua Portuguesa. De um lado, A Minha Alma É Irmã de Deus (Record) que garantiu ao pernambucano Raimundo Carrero a vitória na categoria melhor livro do ano passado; de outro, Se Eu Fechar os Olhos Agora (Record) elegendo o fluminense Edney Silvestre como autor do melhor romance estreante de 2009. Ambos ganharam, além de um troféu, um cheque de R$ 200 mil cada um, o que garante o São Paulo como o prêmio literário que mais paga no País.

 

 

    Carrero e Silvestre. Ambos ganharam, além do troféu, um cheque de R$200 mil cada um

 

 

"Lógico que o lado financeiro tem de ser festejado, mas o que me deixa mais feliz é o reconhecimento por uma literatura nordestina destituída de folclore, evitando copiar o sotaque apenas para agradar e investindo, sim, na reflexão da alma e da condição humana", disse Carrero, sorriso permanente, distribuindo abraços a qualquer um que se aproximasse e fazendo com que seu vozeirão atingisse todos os cantos da sala. Dono de uma obra festejada (Somos Pedras Que se Consomem, por exemplo, ganhou o prêmio APCA), o pernambucano não esconde o sotaque em sua escrita, mas é capaz de manejar com maestria o despojamento. Em A Minha Alma É Irmã de Deus, ele apresenta Camila, mulher que aspira à santidade e à virgindade mas, na realidade, sonha viver de forma arrebatadora ou mesmo em ter o "corpo social" de uma prostituta. Tantos desejos fazem com que o romance tenha muitas vozes. "Há anos que participo de oficinas literárias, ensinando a escrever literatura", diz. "É um exercício constante que agora vejo premiado."

 

A literatura também é um exercício para Edney Silvestre, mas de uma forma mais contundente. Jornalista da Rede Globo, ele conta ter presenciado casos horrendos, o que confirma a máxima de que a realidade pode ser, muitas vezes, mais surpreendente que a ficção. "Acredito que, por isso, é inevitável trazer um pouco dessa maldade para meus escritos", comenta Silvestre que, em Se Eu Fechar os Olhos Agora, narra o encontro de dois garotos com o cadáver mutilado de uma mulher estonteante, porta aberta para revelar os terríveis segredos da elite de uma pequena cidade.

 

"Trabalhei nesse livro durante seis anos e percebo que ele continua assustadoramente atual, especialmente no tocante ao personagem da mulher que, depois de maltratada, é informada de que vai morrer." A literatura, aliás, é uma válvula de escape para o autor há muito tempo. Um dos seis filhos de uma família pobre, que lutava pela sobrevivência, Silvestre agarrou-se à leitura como distração para enfrentar diversas doenças. E começou a escrever para se comunicar, pois não tinha o dom da fala. Agora, mesmo premiado, ainda não se sente escritor de fato. "Minha prosa não tem o encanto do Saramago ou a elegância do Milton Hatoum", acredita. "Mas, mesmo assim, tenho muitas histórias para contar."

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