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A conquista

Promovido a Carlão, Carlos decidiu dar o bote, e a beijou na boca. Ela se deixou beijar, entre risos

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 03h00

Conheceram-se na aula de química. Ele, Carlos, sabia tudo de química. Ela, Carol, era uma negação em química. Foi natural que se juntassem. Carol, a menina mais bonita da classe, muito agradecida pela ajuda que Carlos lhe daria nas aulas de química. Carlos, o mais tímido da classe, maravilhado por estar ao lado da menina mais maravilhosa da turma, logo ele que não sabia falar com meninas sem gaguejar. Logo ele, que era secretamente apaixonado por ela. Secretamente maravilhado por ela.

Passaram a assistir às aulas de química sentados lado a lado, ele explicando tudo para ela, ela tentando entender, às vezes não entendendo e enrugando a testa para mostrar que não entendia, ele pacientemente, maravilhadamente, repetindo a explicação, ela às vezes desistindo de apender e dizendo “eu sou muito burra mesmo” e ele protestando:

– Não é não, não é não. É só prestar atenção.

E pensando: “Será que ela encostou sua coxa na minha por distração ou por intenção?”.

Um dia ela convidou ele a fazer um dever de casa na casa dela e ele foi, maravilhado, pensando “será que eu estou conquistando a menina mais bonita da classe, logo eu, ou será que tudo é só química mesmo, tudo, o suco de maçã com biscoitos na casa dela, a coxa dela contra a dele, distração ou intenção? E se, meu Deus, for amor? Suco de maçã com biscoitos em que sentido?”.

O dever de casa na casa dela se repetiu duas, três vezes, até que um dia, para comemorar o fato de finalmente ter entendido uma questão de química que até então não conseguira, ela o abraçou, gritando:

– Obrigada, Carlão!

Promovido a Carlão, Carlos decidiu dar o bote, e a beijou na boca. Ela se deixou beijar, entre risos. “Fantástico”, pensou ele. “Conquistei a menina mais maravilhosa da classe. Logo eu!” E tentou beijá-la de novo. Mas desta vez ela não retribuiu. Disse:

– Quero lhe fazer um convite, Carlinhos. Pertenço a um grupo que está planejando destruir a escola. Precisamos de alguém que entenda de química para fazer o explosivo. Eu fui encarregada de conquistar você para o grupo. Já disse que você aceita.

Antes de sair da casa, cabisbaixo, Carlos perguntou:

– O grupo é de direita ou de esquerda?

– Nós ainda não decidimos.  

 

*É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR,  

AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

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