A confraria dos livros é um mundo à parte

Para tirar a livreira Ana Maria Miranda Jordão do sério basta comparar o Sebo Fino, que funciona em sua casa, em Petrópolis, na região serrana, com outras lojas de livros usados. ?Sou uma antiquária de livros, como só existem mais cinco no Brasil e 3 mil em todo o mundo?, adverte ela. ?Minha função não é vender livros velhos, mas preservar a história e achar os documentos que a contam. É uma atividade regulada pela Liga Internacional de Livreiros Antiquários (Lila), que tem regras severas. Na nossa profissão, estudamos a vida inteira para ter competência, tradição e confiabilidade.?Ana se diz livreira, mas seu universo é muito maior. Ela descobre, autentica e vende livros, gravuras, decretos, cartazes, revistas e outros itens que fazem história. No seu caso, a nossa história, pois é especializada em brasiliana, ou seja, documentos do período que vai do descobrimento ao Império (entre 1500 e 1889), embora trabalhe também com épocas mais recentes. Ela não conta como os descobre, mas suas expertises são muito bem fundamentadas. ?O livreiro antiquário consulta catálogos, publicações especializadas e, agora, a Internet?, diz Ana. ?A gente se especializa e conhece tudo do assunto. Como o expert em arte, nossa palavra autentica um documento.?O interesse de Ana surgiu ao herdar do pai, o advogado Haryberto Miranda Jordão, uma biblioteca, ou melhor, uma coleção de bibliófilo. Em 1981, com o jornalista e ex-deputado Márcio Moreira Alves, seu primo, abriu a Sebo Fino e conquistou uma clientela fiel. ?Os colecionadores brasileiros não chegam a mil. Aqui não há, entre as classes dirigentes e empresários, a tradição e a mentalidade de preservar, de forma institucional, a memória do País em documentos, manuscritos ou impressos, no que tecnicamente se chama suporte papel?, dita ela. Alves desistiu logo, mas Ana ampliou o negócio. ?Com os documentos que encontramos, restabelecemos a verdade histórica e corrigimos lendas como a de que Dom João VI e seu filho, Dom Pedro I, eram meros pândegos e não os grandes políticos que foram.? Modismos ? É um trabalho longo e refinado. Descobrir um livro, autenticá-lo e encontrar um comprador pode levar um ano ou mais. Às vezes, dá-se o contrário, Ana recebe encomenda do colecionador e sai à busca. Até 1994, ela fazia catálogos e os encaminhava aos clientes, mas parou. Todo mundo a conhece e ela não trabalha mais com itens isolados, só coleções. E recebe com hora marcada porque seus clientes chegam com objetivos precisos. ?Tem gente que só gosta de decretos régios, outros preferem primeiras edições de clássicos de ficção ou não. Há também modismos. No tempo do meu pai, eram textos do padre Antônio Vieira. Hoje é iconografia, desenhos e gravuras de viajantes que nos visitaram. É natural, porque a iconografia é mais atraente que o texto escrito.?O preço também é negociado. Logo que abriu o Sebo Fino, Ana vendeu um original do Plano do Pitt, relatório de 1881, em que o embaixador da Inglaterra recomenda a mudança da capital do Rio para o Paraná, por US$ 260, para a livraria inglesa Quarithc. Em 1984, promoveu seu único leilão e outro exemplar, dos poucos que existem, foi arrematado por US$ 1,2 mil. Hoje ela não fala em valores, dá dicas: acaba de pagar US$ 1 mil, só pela restauração de um exemplar da primeira edição de História das Navegações no Brasil, de Jean de Lery, ainda em latim. O livro, pouco maior que um volume de bolso, é uma das primeiras descrições do Brasil e está em catálogos internacionais como extremamente raro, ou seja, só existem cerca de dez exemplares.Embora apaixonada pelo ofício, capaz de falar por horas seguidas, Ana não esconde os fracassos. Um deles foi a tentativa de vender a médicos brasileiros documentos sobre a questão da saúde no Brasil. Mandou-lhes catálogos da coleção, mas ninguém respondeu. Pior foi o que ocorreu com os documentos relativos às leis e constituições brasileiras. ?Fiz o catálogo em 1987, em plena Constituinte, e mandei para todos os deputados e senadores. Entre quase 600 congressistas, só Itamar Franco respondeu pedindo o decreto que anexou o Triângulo Mineiro a seu Estado. Infelizmente não consegui?, lembra ela. ?José Sarney, que era presidente, também respondeu, mas ele é meu cliente há muitos anos. Foi uma decepção descobrir que os congressistas brasileiros não ligam para a história do Brasil.?Mas as alegrias são maiores. ?A gente se emociona ao descobrir um documento e o colecionar que o quer?, comenta. Foi assim com os manuscritos originais do Tratado do Rio de Janeiro, de 1823, em que o Brasil assume sua primeira dívida, 1.780 libras esterlinas em troca do reconhecimento da independência. ?Me indicaram o banqueiro Walter Moreira Salles como comprador e a secretária dele me disse que ele só tinha meia hora para me atender. Conversamos quase três horas e hoje o documento está preservado na coleção pessoal dele.?

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